Sou uma multidão. E por vezes perco-me na multidão que sou. Claro que eu sou eu. Mas sendo eu (e isso já não é ser pouco, porque cada dia, cada hora, cada minuto, sou um eu diferente), não sou apenas eu. Sou também quem os outros pensam que sou. E porque cada um tem uma ideia diferente de quem sou, serei pelo menos, nessa conformidade, para além de mim, tantos quantos aqueles que me conhecem (o que não será afirmação totalmente segura, porque se todos os que me conhecem tiverem, como eu, vários eus, então, cada um desses eus terá concerteza uma ideia diferente de mim, pelo que serei muitos mais). Mas como se não me bastasse ser tantos, sou ainda mais alguns. Porque sou também aqueles que penso que os outros pensam que sou.
No meio de toda essa gente que transporto comigo, havia uma única certeza que possuía. Não, obviamente, sobre quem sou. Mas sobre como me chamo. O meu nome era o único denominador comum a cada um dos meus eus; era um refúgio, um triste arremedo de unidade. Mas, desenganei-me. Ou melhor, Mário de Sá-Carneiro, desenganou-me. Cito-o, em Nome de Guerra: « Ser homem ou mulher é apenas a natureza; chamar-se João ou Manuela já é a natureza mais a vida inteira: é o problema. E se o João é Sousa e a Manuela é Pereira, então, à natureza e à vida junte-se-lhes ainda por cima a existência e complicou-se o problema. Ser Sousa ou Pereira ou outros apelidos quaisquer é logo uma árvore genealógica tamanha que, embora o próprio a desconheça, tem sempre muito que se lhe diga». Acabei de comprender que não sou apenas os muitos que sou: sou também aqueles, tantos, que foram antes de mim.
Agitado por essa compreensão, só me apetece suspirar, em coro, como Bernardo Soares, ajudante de Guarda-livros na cidade de Lisboa: «Felizes os que sofrem com a unidade! Aqueles a quem a angústia altera mas não divide, que crêem, ainda que na descrença, e podem sentar-se ao sol sem pensamento reservado».
Sábado, 02 de Fevereiro de 2008
