É corrente dizer-se dos homens para justificar os seus comportamentos, as suas acções faltosas, os seus gestos nobres, as suas grandes decisões ou os suas mais prosaicas atitudes que eles são o fruto do seu contexto, da sua conjuntura, enfim, das suas circunstâncias. Eu próprio o digo, amiúde, para justificar por vezes o injustificável, os meus fantasmas, as angústias que me atravessam a espaços, as inquietantes hesitações, os momentos insuspeitos de felicidade. Mas, no meu caso particular muitas das minhas circunstâncias foram e são ditadas pelos livros que li, fiéis e inseparáveis companheiros de infância, adolescência e maioridade. Amores que não arrefeceram com a idade, a que o tempo não macerou com feridas, cicatrizes, antes instilou uma crescente e renovada paixão e entusiasmo, braseiro inesgotável de calor e conforto.
Ao compaginar estas crónicas de viagem, semi-delirantes, dei-me conta inadvertidamente de que não foram o acaso, a imprevisibilidade ou o sentido de aventura e errância, ao contrário do que imaginava inicialmente, que guiaram os meus passos. Subreptícias, subcutâneas, subliminares, as minhas memórias literárias encarregaram-se, - como se encarregaram sempre até aqui, vejo-o agora com clareza - de ditatorialmente traçar os meus itinerários de viagem, só na aparência pretensamente livres. Determinísticas, intolerantes, inquestionáveis.
Inventariando o meu percurso até agora, retrospectivamente, cheguei a Buenos Aires pela mão de Borges, falei de Swift em Montevideu e lembrei-me de Camões (da sua lírica, não da sua homérica epopeia) e de Pessoa ("Oh mar salgado quanto do teu sal são lágrimas de portugal…") em Colónia del Sacramento, uma pequena pérola portuguesa engastada numa curva do Rio da Prata. Segui para Sul, apenas porque antes tinha lido Jack London, porque estive uma vez Na Patagónia com Bruce Chatwin e porque embarquei numa viagem passada com Joseph Conrad A bordo do Snark. Procurei baleias, manejando arpões imaginários, impulsionado por Melville, pela narração que fez do seu capitao Ahab, que viveu e morreu, desesperadamente obcecado por uma terrível baleia branca. E recorri a Marguerite Yourcenar (curiosa e inesperada escolha) para descrever os gigantes cetáceos oceânicos dos mares do Sul. Agora dirijo-me a Pablo Neruda, tendo nas mãos os Versos do Capitao. Rumo a Gabriela Mistral, a Skármeta e a Jorge Edwards, em busca de uma terra de poetas e de narradores mágicos.
Prossigo, em breves momentos, ofegante, a ansiedade mal contida, para o Chile.
Hoje, estarrecido, vi baleias.
Imensas como o mar; antigas como o mundo; austrais como a Patagónia. Cito, entredentes, num sussurro, Marguerite Yourcenar (quando aparentemente o mais indicado deveria ser citar Darwin) e, depois quedo-me, mudo, maravilhado e respeitoso, perante a acção do tempo, "esse grande escultor".
Em terras sul-americanas as viagens não tem fim. Nos painéis de velocidade dos autocarros dispensam-se os quilómetros-hora; usa-se uma outra medida para contar as incontáveis distâncias: a dos quilómetros-dia. No meu caso, com maior acuidade, a dos quilómetros-noite, volvido que estou em pródigo viajante noctívago que tem ultimamente, infatigável, levado a cabo algumas destas expedições nocturnas.
Dadas as circunstâncias, decidido a tirar o melhor partido da incómoda situação, adianto-me aos restantes passageiros e instalo-me no piso superior das rugidoras máquinas, logo na sua primeira fila. Converto, então, o vidro semi-circular dianteiro num inusitado mas miraculoso observatório espacial e passo, horas a fio, dedicado a traçar novas constelações na abóboda celeste. Desafiando os actuais conhecimentos humanos sobre o cosmos. Quiçá, movido por uma infinita, e sempre em expansão, ignorância.
(Por mim continuaria a condenar Galileus e Copérnicos, a lançá-los para o fogo crepitante e iluminador das fogueiras, Ptolomeu anacrónico dos tempos modernos que desconfia de heliocentrismos).
A verdade é que já tenho - após duas ou três noites de vigília lunar – todo um zodíaco criado. Uni os astros sobre os vidros gélidos das viaturas em que me desloquei, usando marcadores de tinta permanente e porções maciças de sono crespuscular. Resultaram daí tigres dentes-de-sabre siameses, uma vénus de milo e um santo graal; dois zigurates (um assirio-babilónio, o outro caldeu); um tiranossaurus-rex, um Taj-Mahal e uma flor-de-lótus; uma grande muralha, um mausoléu de Halicarnasso; e uma Guernica. Por certo, outras constelaçoes ainda irei alterar, desfazer, reconfigurar, recortar no céu, tantas as noites que antevejo passadas nos bancos dianteiros de vaivéns, que atravessam a imensa escuridão. De todas, a única constelação que tenciono manter inalterada até ao fim da viagem, bem alta no céu, é o Cruzeiro do Sul. Por via das dúvidas. Nao vão os motoristas, falhando-lhe os instrumentos de navegação, precisar de um guia no firmamento.
Em todo o caso, não se pense que foi exclusivamente por mero desconhecimento astronómico ou motivado por algum inconfessável espírito de contradição ou, simplesmente, para passar o tempo que reagrupei, hiperbolicamente, as estrelas hiperbóreas. Foi, acima de tudo, num afã inclassificável de mudar o meu destino, para garantir que, contrariando o que estava vaticinado nas originais, nestas novas conglomerações, esteja escrito que verei a Patagónia.
Buenos Aires era na minha mente, antes da partida, o ponto que marcava, interrogativo, o princípio de uma viagem. Era também um sonho longamente acalentado. E ainda um pedaço de mundo que desejava, desde há muito, conhecer. Foi tudo isso, sem excepção: uma etapa cumprida, um conhecimento empírico, uma onírica paisagem.
Mas foi só qundo cheguei a Montevideo, não mais do que um imprevisto apeadeiro, um acidente de viagem que não figurava nas conjecturas iniciais, e que apenas pouco a pouco foi ganhando forma, que fui, sem o suspeitar e inadvertidamente, assolado pelo espírito errante que escolta o intrépido viajante. Em vão, incessantemente, o demandava já há alguns dias, receando que não se manifestasse, que se tivesse perdido, dissociado de mim. Aspirava, sôfrego, por essa vaga mas funda sensação de liberdade que desinquieta o corpo. A inquietação e vertigem dos músculos, ao manifestarem-se, contribuindo para acalmar a tormentosa alma.
Não sei se a demora terá sido causada pelo excesso de ansiedade ou, se a sensação de errância – de forma nada errática -, estava apenas à espera do momento propício para fazer a sua aparição. Creio mais nesta última hipótese, considero-a, de resto, única e irrefutável. Acredito que o seu tardio aparecimento foi providencial e teve tudo a ver com a ocre cor do mar em Montevideo e com o seu acre sabor.
Aqui chegado torna-se necessário explicar que, em Montevideo, o mar não tem tons de azul. Tem tons de terra. Não é liquido, mas sólido. Os seus átomos tolhidos, demasiado próximos, aprisionados em moléculas demasiado estreitas. A sua espessura é tal que se podem cortar nele pedaços. Talvez seja sulcado por barcos-arados que nos socalcos das ondas semeiam peixes. Montevideo é um lugar irreal, onde mar e terra coexistem às avessas, como se nao fossem uma contradiçao em termos, um inverso e um reverso. Como se os elementos telúrico e aquático tivessem sido confundidos por algum deus menor que, no momento da criaçao, ébrio, extraíra do caos o caos, escarnecendo da ordem e do equilíbrio.
Contemplar o mar e vê-lo, assim, térreo, é auspicioso, mas também aterrador. Augura extraordinários lugares, infindáveis maravilhas, infinitos mundos. Hoje, sou Gulliver, temo e anseio por ver Lilliput.
Para o Vitor, para a Carla e para o Miguel, com amor
Explicar a vida, a sua lógica, o seu sentido, as suas indizíveis contradições é tarefa em que humanidade se vem afadigando desde que um homem, o primeiro, ganhou conciência de si, se ergueu bem alto, olhos postos no céu e deixou para trás a floresta, invadindo a savana. Desde esse dia primordial em que a aventura humana começou, os filhos daquele primeiro homem começaram a sua busca ininterrupta na tentativa de encontrar o que justificasse a sua presença no mundo. Gerações de pais que geraram filhos, que tiveram outros filhos, que se tornaram pais, na tentativa compreender a vida, conceberam explicações para o indizível - fiéis depositários desse legado da inteligência, que ao mesmo tempo se afigurou um inominável fardo. Tentaram as vias mágicas, científicas, religiosas e metafísicas; redigiram tratados, opúsculos e poesias; inventaram a arte; percorreram o mundo, alternando acessos de nomadismo com ímpetos de sedentarismo, umas vezes pensando que haviam de encontrar o ambicionado segredo, outras que o tinham encontrado. Contudo, ainda e sempre, incapazes de perceber que ínvios caminhos, que sinuosos trilhos, os teriam conduzido ali, àquele exacto dia das suas vidas. Incapazes de desvendar o cálculo combinatório desenhado por um imperscrutável e tortuoso demiurgo criador.
Os que nasceram, os eleitos improváveis dessa indescritível roda da fortuna, são a concreta tradução no real de probabilidades infinitamente infinitesimais, em que se jogaram aleatórios acasos, fabulosas coincidências, funestas e infames dissidências, aproximações e afastamentos, beijos e repúdios, milhares de trocas genéticas. Apenas alguns cromossomas vencedores.
O sentido da vida ainda hoje escapa, esquivo, às mentes e aos corações humanos. Mas a perfeição cósmica e circular do filho que se faz pai, aproxima-nos do maravilhoso. Só assim se percebe que alguém se encha “de ar, de perfumes de jardins e de rosas e de quatro ventos frescos cardeais e de todos os lugares mágicos e de fantasia do mundo”. Fico feliz, tão feliz, tão imensamente feliz, por esse alguém ser o meu amigo Vitor.
Um abraço forte, muito forte. Desculpa molhar a tua camisa com estas duas lágrimas rebeldes, que não queria deixar cair, mas que fui incapaz de conter…
Há dois tipos, apenas dois, de escritores. Ou, mais exactamente de pessoas que escrevem - o que não é definitivamente a mesma coisa: os epidérmicos e os dérmicos. Os primeiros conseguem exprimir todo o torrencial de emoções que os tolhem e atropelam, assim que lhes tocam a supefície, mal lhes afloram a pele. Mostram-se capazes de as despejar, volvidos breves instantes, em tropel, nos seus cadernos de anotações, num invejável e torrencial fluxo de exuberância criativa, onde a metáfora da página em branco nunca tem lugar. Quanto aos segundos, os dérmicos - grupo onde, é indiscutível, estou filiado -, necessitam de mais tempo para absorver as suas vivências e experiências pessoais. São, talvez, menos sensoriais e por isso precisam de as deixar alastrar, subreptícias, num lento processo de osmose subcutânea. E só então, depois de prolongado amadurecimento, se mostram capazes de reproduzir as suas cargas, quando não sobrecargas, emocionais, já uma vez bem interiorizadas.
A desvantagem dos que escrevem de forma epidérmica é, óbviamente, a sua extrema superficialidade. Vogam de emoção em emoção, sem reter nenhuma, passando à seguinte sem contemplações. Nunca se fixando em momentos particulares ou detendo-se em singulares episódios. Basta, por vezes, para eliminar as sensações colhidas, um banho mais prolongado, a água e o sabão encarregando-se de as fazer desaparecer, removendo-as juntamente com o suor do corpo, em higiénica e obliviante operação. Quanto aos dérmicos, o seu maior contra, é a profundidade em que algumas das suas experiências se alojam, demasiado subterrâneas para serem encontradas, agrilhoadas nas profundezas do ser, lugares ermos onde dificilmente as alcança a memória.
Vem esta reflexão, que saíu mais extensa do que previsto (nunca sei por que estranhos e tortuosos caminhos me levam as palavras...) a propósito da promessa, acto irreflectido e de que fiquei refém, de enviar uns post(ai)s ilustrados da viagem agora iniciada ao subcontinente sul-americano. Essas pequenas crónicas quotidianas nunca saem como desejo. Falta-me o tempo necessário para moldar as palavras, para as burilar, para as obrigar a dizer o que sinto. Pouco lisongeiras para ilustrar o que viram os olhos, incapazes de traduzir o que o corpo percebe. Sem espaço para se soltarem, pressionadas pelo rápido tique-taque do relógio, contando curtos 15 ou 30 minutos de intensivo uso internáutico, num qualquer ruidoso cibercafé de uma qualquer cidade. Paciência, portanto, é o que peço aos meus amigos. E alguma contemporização. Mas, justamente porque são meus amigos, sei que posso contar com ambas.
Longo intróito. Agora os factos.
Ontem abandonei Buenos Aires, com enorme pena, sentindo a mesma saudade e lamentosa resignação que se sente quando se abandona algo que já consideramos nosso. Para a despedida guardei a área de Palermo, com os seus frondosos bosques e jardins, onde os caminhos se bifurcam e as veredas se estendem. Lugar privilegiado onde os porteños recebem, com flores e em flor, a chegada da Primavera.
Aos muitos hectares de verde, seguiu-se Palermo Viejo, onde abundam as pitorescas e serenas calles de pedra, salpicadas por pequenas lojas de artesanato e por cafés pacatos que convidam à aventura da leitura. Não por acaso, o seu epicentro é a rua Jorge Luis Borges - o equívoco, o esquivo, o fantasmático escritor, o inenarrável contista, a minha perturbante obsessão literária - que paira omnipresente pela cidade.
Dei conta, há alguns dias atrás, do meu projecto de ler um conto seu nas escadas da Biblioteca Nacional de Buenos Aires, lugar onde tantos anos foi Director, já cego, tendo recebido a notícia da sua nomeação com um sorriso e algumas, poucas, palavras: "a suprema ironia de Deus". Quando me aprestava para o fazer, iniciar a leitura, o conto meticulosamente escolhido, A Biblioteca de Babel (poderia ser outro?), senti-me uma personagem de uma sua estória, presa em ardis, labirintos e jogos de espelhos, lidando com a falta de substância do tempo. A Biblioteca Nacional que encontrei não era aquela que tanto procurava. O edifício que se erguia à minha frente era novo, um equipamento cultural moderno e melhorado da cidade, sem memória e sem passado. Desfeito o equívoco, reatei a busca, pressuroso, à imagem daquele outro homem por ele descrito e a quem chamou Homero, que perseguia a imortalidade para, uma vez conseguida, iniciar uma nova perseguição, ainda com maior empenho, da sua mortalidade perdida e tão desdenhada.
Para meu espanto, a suprema ironia de Deus a que Borges aludira haveria de se manifestar novamente. Era em Santelmo que se quedava o velho palacete que um dia abrigara Borges, o seu intelecto e o espólio literário da cidade. Santelmo, o bairro do casco velho de Buenos Aires. Santelmo, onde tinha estabelecido o meu quartel-general, o meu posto avançado. Sem o saber, debaixo da sombra tutelar do velho mestre.
***
Cheguei a Montevideo. Não sei ainda que alegres surpresas, pequenos prazeres ou risíveis decepções me reserva a capital uruguaia. Ainda toda por desvendar, mas já merecedora da minha estima. Chegar pelo Rio da Prata ao cair do crepúsculo, ver o seu skyline recortado no horizonte, o porto vibrante de vida, é uma experiência que não irei esquecer. Ainda que tenha para me lembrar mais tarde, de esgravatar, bem fundo, sob a pele retalhada.
Os argentinos revelam uma forte inclinação para a idolatria. Devotos, erigem templos com as suas próprias mãos. Crentes, clamam por canonizacões e profetizam milagres. Empenhados, organizam romagens que rivalizam entre si em tamanho e em actos de fé. Dedicados, professam cega devoção a relíquias, muitas delas apócrifas.
A espiral de vertigem religiosa que comprova o fervor de Buenos Aires, explica a multiplicação dos locais de culto e a proficiência dos seus santos. Exactamente do mesmo modo que justifica as suas meteóricas quedas. A ilusão, nestes casos, nunca é duradoura. Desfeita pela ausência de milagres. Desmentida pela falta de sinais divinos. Por demais evidente nos pés de barro dos falsos ídolos que se quebram, com estrépito, ao embater no solo. Porque incapazes de se manterem nos altares e nos nichos para onde foram, em desditosos dias, elevados.
Na história recente da Argentina apenas dois santos mereceram a sua beatificação. Fui ontem no seu encalço, em privada peregrinação. Eu, que não sou homem de fé, nem dado a manifestações religiosas, experimentei dois momentos de um tão inesperado como comovedor misticismo: o primeiro, ao visitar a campa de Eva Maria Duarte, dita Evita Perón; o segundo, quando rumei ao Estádio do Boca Juniors, onde Maradona fez as suas primeiras messiânicas aparições.
Ambos, Evita e Diego, campeões dos pobres, dotados do único atributo que faz os santos, portadores da alquímica propriedade capaz de transformar o barro (em que foram gerados) em ouro, nobre metal que refulge a glória divina. O ouro que se fez coração no peito da mulher que socializou um homem e, logo em seguida, um país. Aquela que chamou descamisados aos seus queridos pobrecitos, numa nua adjectivaçao que em outra boca seria apenas um insulto e nela não era senão uma doce prova de carinho. O mesmo ouro dos pés de Maradona, que devolveu momentaneamente o orgulho perdido aos deserdados da fortuna, primeiro aos do seu próprio povo, depois às gentes de Nápoles, mostrando-lhes luminosos lampejos da graça divina e o toque de Midas da genialidade.
Com quantas cidades se faz uma cidade?
Viajar é antes de mais um exercício de arquelogia e história e só depois de geografia e de demografia. É necessário, em primeiro lugar, circunscrevê-la, delimitá-la, dividi-la em quadrantes para mais facilmente a explorar; estabelecer com rigor as camadas sobrepostas que nela se depositaram, identificar com a máxima precisão os seus níveis arqueológicos. Só então será possível proceder a uma cronológica e exacta estratigrafia dos seus sedimentos e sentimentos.
Ainda que mudem as cidades, o método de prospecção deverá permanecer imutável para o viajante experimentado. Buenos Aires não constituiu, por isso, para mim, nenhuma excepção na aplicação desta regra canónica. Mas a exploracão da admirável capital argentina enfatiza o quão difícil é evitar, em certos casos, contaminações de evidências: os testemunhos de variadas épocas penetrando-se, justapondo-se, cruzando-se, gerando uma argamassa indistinta e quase indivisível de tijolo, adobe e sangue; de chapa, suor e cimento armado. As paredes a prumo, assim formadas, escoradas por traves de esperança, madeira e resolução. Os tectos, construídos por improvisados estucadores, que usaram na tarefa um particular tipo de gesso, feito de sorrisos e lágrimas.
A colónia espanhola original cresceu sobre um baldio pantanoso, nas imediações de um curso de água, que lhe providenciou o sustento necessário para fazer frente à fome e à sede. Mais tarde, graças aos filões auríferos e especialmente aos suprimentos de prata, a cidade ampliou-se e tornou-se um símbolo de poderio, de riqueza e ostentação. Nos séculos XVIII e XIX a monumentalidade instalou-se decisivamente, deixando notáveis exemplares arquitectónicos.
As casas coloridas e chapeadas de La Boca, num exemplo inusitado de arte povera e de arquitectura espontanea, testemunham a chegada da imigração italiana. Os navios – periclitantes - que haviam galgado um oceano, uma vez ancorados na ansiada enseada, foram rapidamente transformados em casas – recalcitrantes - em terra. Eles que haviam tão bem cumprido a sua função de abrigos no mar alteroso, ei-los, continuando o providencial papel protector, quando chegados a solo firme, fruto de um raciocínio com tanto de inesperado como de inatacável. Com esse pedaço de Itália chegou o ciciar cantarolado, que amenizou o carregado sotaque espanhol colonizador, adoçando-o. Com ele chegaram ainda o tango e as milongas, danças de prostíbulos e de malandros, vestidas de sedução e pecado venial. E chegou ainda a paixão pelo futebol, que nao é outra coisa senão uma forma de coreografia e bailado, mesclado de magia, quando interpretado pelos jogadores argentinos. Mais tarde, nos anos 30, a Arte Nova instalou-se, flamejante, em Buenos Aires. E a esse legado devo muito do meu sempiterno fascínio pela cidade: os edifícios rectilíneos, procurando o céu, esculpidos em pedra e alabastro, adornados por voluptuosas cornucópias e arabescos de ferro forjado, recheados de um vaidoso e eclético modernismo.
Hoje, uma nova cidade toma forma junto ao rio que a viu nascer. Uma cidade moderna, cosmopolita e elegante, onde abundam os espaços de lazer e cultura, que lhe modificam o perfil e a silhueta, sem contudo lhe retirarem o carácter e a idiossincrasia. A cidade, agora como dantes, sempre viva, altiva e em perpétua mutação. Como uma bailarina de tango que, vaidosa, troca de roupagens e se engalana para cada nova demonstração de virtuosismo.
A (im)possível homenagem a Borges
Sonhei que sonhava
Uma singular e improvável cidade
Buenos Aires se chamava
A urbe ilusiva, sem idade
O sonho ígneo ardeu
Quando convocada a realidade
A cidade una desapareceu
Nos labirintos da sua multiplicidade
Vendo-a reflectida num rio prateado
(Espelho poliédrico e convexo)
Descobri que não a havia efabulado
Mas que -obra e acaso de um enigma sem nexo-,
Tinha sido, afinal, por ela sonhado
Perder-me nos poemas labirínticos de Borges, sentado nas escadas de alvenaria da Biblioteca Nacional de Buenos Aires. A seguir, prospectar as águas argênteas do Rio de La Plata. Tomar um café aromático, reparador, no mercado do porto de Montevideu. Depois, cruzar as pampas, a todo o vapor, no ventre de um comboio, enquanto esventro um continente. Protestos indignados contra Pinochet em Santiago do Chile, seguidos da colheita de uma rosa no deserto de Atacama. Entretanto, há os Andes. E, logo a seguir... há os depois: visitar Cuzco, invadido pela curiosidade; percorrer os velhos trilhos Incas, rumo a Machu Pichu; e voar nas asas do desejo, imitando o planar rasante de um condor sobre o lago Titicaca, a 4000 metros de altitude...
Por enquanto, apenas projectos. Lastro demasiado grande para transportar em tão pequena mochila de viagem. Daqui a um mês, espero que já memórias. Chaves-mestras para fugir à realidade. Nessa evasão da mente ganhando forças para suportar a invasão do quotidiano.
Até já!
Parabéns, mamã! 55 vezes parabéns.
Do teu filho, que tanto te quer, mas que tão poucas vezes to diz.
(Todos os textos merecem uma segunda oportunidade, até os terríveis, como o que aqui morava antes. Dei-lhe uma guia de marcha para que mudasse de ares e perdesse alguma da petulância anterior. Regressou, pouco depois, não com muitas mudanças. Mas ainda assim espero que mais simples, claro e melhor. Era um balanço. Talvez por isso tenha perdido o pé.)
Tempo de balanço. Os dias vão escorrendo, deslizantes, pela superfície árida deste caderno. Em horas incertas e em datas adiadas. Um pingo aqui, outro pingo ali, formando pequenas poças salpicadas por lembranças, charcos de desolação, aquáticas quimeras. À queda de novas gotas sucedendo-se, quase sempre, ligeiras ondas de choque, propagando-se, concêntricas, até esbaterem naqueles que o lêem. Então, escuto os ecos das minhas palavras, neles ricocheteando. Ouço, com imensa atenção, as vozes dissonantes, pronunciando-se sobre os escritos vertidos, classificando-os de bonitos, angustiantes ou curiosos; de herméticos ou circulares; como vagamente fantasiosos ou deveras interessantes. Apenas unânimes quando proferem, em coro: tristes, sentimentais, melancólicos!
Não sei se essa invocada tristeza corresponderá à verdade. Nem me parece que deva ser julgador em causa própria. A não ser que fosse o mais inclemente dos juízes, me chamasse Salomão e, então, que me restaria senão, pretextando justiça, rasgá-lo ao meio, a este blog de notas? Salomonicamente, pois claro. Em duas partes exactamente iguais. Tão iguais como duas gotas de água.
Felizmente não sou juíz. E portanto, por enquanto, conservo ainda intactas as notas avulsas. Contudo, com algum esforço e recorrendo às doses possíveis de alheamento e distanciação, talvez deva reconhecer, olhando para trás, que as palavras que por aqui brotaram se assemelham demasiado a lágrimas. As acusações de melancolia, nessa medida, podem ser mais do que uma húmida coincidência. Não se trata aqui, portanto, de iludir o que escrevo. Longe disso. A escrita é transparência, não opacidade. Convém apenas ter em mente, para que conste e para que se possa perceber o hipotético sentimentalismo que supostamente impregna a minha prosa, que escrevo em português. Debato-me, portanto, com a minha própria língua. Lido com a única no mundo que decanta, em alambiques feitos de ligas de metal e nostalgia, o volátil sentimento da saudade. Onde quase todas as palavras não são alegres, mas perfurantes e, por essa razão, ou são graves ou são agudas. E onde, as que restam, são acentuadas de modo esdrúxulo. Parafraseando o poeta, "todas as palavras esdrúxulas, como os sentimentos esdrúxulos, são naturalmente ridículas". Ridiculamente tristes, devo acrescentar, com gravidade, em aguda observação. E à laia de justificação.
A amizade e o amor – outra vez a amizade, outra vez o amor – são fonte incondicional de alegria. Contudo, é na tristeza que verdadeiramente se testam, no acto confessional da mágoa e do pesar. É possível rir com desconhecidos. Menos fácil, sorrir. E é, de todo impossível, chorar com eles. Só com os amigos, com aqueles que se ama, se pode aliviar a alma e libertar os pesos que o peito, quantas vezes carregando tonelagens que não foi feito para suportar, carrega.
Os meus pais – os meus melhores amigos e os meus grandes amores – carregam o insustentável fardo de lidar com a minha taciturnidade, com o meu lado mais sombrio, negro e lunar. Não é porque não lhes queira dar alegrias. Mas porque só eles são capazes de suportar a minha incomensurável tristeza. Precisava que alguém lhes explicasse isso. Porque eu não consigo. Sempre que o tento, a garganta aperta-se-me, os olhos turvam-se e sou acometido por uma torrencial vontade de chorar. Como agora.
Anda uma pessoa a esforçar-se, a tentar fazer um texto profundo, brilhante e inspirado, para dedicar à amizade; a dar pontos e nós, para depois vir um amigo, agarrar numa tapeçaria tão bem entretecida e no-la tirar debaixo dos pés. Mas, Vitor, lamento discordar da tese de que não se medem as amizades (pensar que achava que o lírico, romântico incorrigível e optimista antropológico era eu...) e até acho que a economia pode ser uma boa metáfora para ela. Senão, vejamos: qualquer amizade carece de um bom investimento inicial, não surge do nada, mas de uma prospecção de mercado que nos diz em quem devemos confiar e de um histórico comum que se aforra; depois, é inegável, há flutuações na amizade, é uma taxa que oscila e que varia - não conheço tal coisa como uma amizade estável, linear, sem sobressaltos ou riscos, arrufos ou estados de pura exaltação. Sofre sempre as alterações da conjuntura. Por outro lado, as amizades trocam-se, cambiam-se, permutam-se - ainda que o possas fazer à maneira soviética, estabelecendo planos quinquenais prevendo almoços, jantares, idas à praia ou ao cinema; ou, utilizando o modelo capitalista, da livre iniciativa, para promover encontros imprevistos. Na amizade estamos sempre a avaliar, pesar, medir acções e reacções, a dar e a receber, a fazer ofertas e a sentir as urgências da procura. Há balanços e demonstrações de resultados. Há passivos e activos. Acções que se tomam e obrigações que se assumem. E há uma intensa gestão de conta-corrente. E até há cobranças difíceis (o que foi senão uma cobrança difícil a intimação de vires a este blog deixar umas palavrinhas...). E, supremo argumento, de todos os meus amigos, de todas as pessoas que conheço, há os que me estão mais perto do coração e os que me estão ligeiramente mais afastados. Para exclusivo lucro e benefício de uns e prejuízo de outros. A amizade é um bem escasso, raro, que convem entesourar para que não se transforme em capital ingloriamente delapidado... e para que a bolsa, que é o coração, não sofra nenhum crash.
Não é de estranhar que os bebés saibam nadar assim que nascem, pois emergem do mar, umas vezes calmo, outras alteroso e encapelado, que é o ventre materno.
Depois, ansiosos por fazer a sua entrada no mundo, ocupados com outras precupações e novos afazeres, olvidam rapidamente esse oceano primordial. É por essa razão que se torna necessário reaprender a nadar quando se cresce. Lamentavelmente, sem quaisquer garantias de recuperar a técnica perdida. Eu, por exemplo, nunca mais nadei mariposa tão bem como quando o fazia na placenta da minha mãe e continuo com dificuldades, inusitadas, em respirar nos tímidos mergulhos em apneia a que me atrevo. Apesar dos nove meses que passei submerso.
Mas, se todos os recém-nascidos sabem nadar, menos habitual é que alguns aproveitem a espuma do líquido amniótico para outras, mais insuspeitas e radicais, actividades aquáticas.
Do Pedro João, que ainda não conheço, já me chegaram prodigiosas novas relativamente ao seu nascimento. Não assisti, mas não me é difícil adivinhar: vejo-o, impaciente, a esperar por uma nova subida da maré; a observar o swell, até este ficar finalmente ordenado, por forma a dar ao contorno da onda a sua ideal forma; e, depois, imagino-o a desenhar um perfeito cutback. De pontuação máxima. Capaz de romper águas e cortar cordões umbilicais. Primoroso, a executar a manobra da sua vida.
Parabéns Mafalda. Parabéns Miguel. A partir de hoje, a praia de Carcavelos terá, decididamente, outro encanto.
A amizade mede-se. Intui-o desde sempre, somente desconhecia a exacta maneira de o fazer. Na fúria de avaliar, de quantificar... que digo?... de estimar os amigos, de descobrir com precisão a distância que me separava daqueles de quem gostava, usei inéditas escalas, de tamanho e alturas variáveis, tirei azimutes de afectos, cartografei rotas de sofreguidão, escolhi enganosos e falíveis referenciais de ternura.
Pensava que se fosse capaz de medir a amizade me seria possível vencer os espaços vazios deixados por aqueles que se afastavam, ainda a tempo de seguir no seu encalço e de os transformar, de novo, em meus reféns e cativos. Aconteceu que perdi amizades (e amores) porque os deixei ir, incapaz que fui de os recuperar, sem saber como transpor as distâncias cavadas, entretanto entrecortadas por abismos de fel e amargura. Trilhei, à vez, quilómetros, jardas, horas e léguas, sem lograr aproximações, nem encontrar caminhos de regresso.
Os anos, todavia, tornaram-me mais sábio e experimentado. Hoje, sei o que se utiliza para mensurar a amizade e, desde então, nunca mais perdi nenhuma. Apenas me surpreende o tempo que levei a adivinhá-lo, pois usa-se nesse cálculo a única medida possível. A mesma que utilizam as embarcações à deriva, enquanto procuram portos de abrigo, resguardos seguros onde se protegem até ao amainar das tempestades. A amizade mede-se em nós. E nessa ordem de grandeza, metamorfoseada em pronome pessoal, que enlaça, ata e envolve, nunca haverá, garanto-to, o mínimo risco de nos perdermos. Basta para isso, Miguelita, reeditar Teseu e Ariadne, no Labirinto do Minotauro. Ainda que uma das extremidades do novelo esteja em Braga e a outra em Lisboa...
A grande sinfonia da Rússia do século XIX foi composta a duas mãos: Dostoievsky escreveu os adagios, Tolstoi pôs na pauta os allegros vivaces. Um falou dos pobres, dos desgraçados da fortuna e do lado negro da humanidade, escolhendo para isso tons de dó; o outro, das elites, dos privilegiados e da nobreza de sentimentos, preferindo as notas em sol.
A polifonia da partitura resulta eloquente, ou melhor, grandiloquente. Os dois, em conjunto percorreram toda a escala da sociedade russa, de cima a baixo. E com os acordes que tocaram, deixam-me emudecido, de espanto e admiração.
Ainda que eu prefira os andamentos tristes - guardo-os com carinho ao lado da manta e do chocolate quente, para escutar nos dias invernosos - agora, que é Verão, ocupo-me de assuntos, não tão breves (ou semi-breves), e escuto, por enquanto ainda longínquos e pouco audíveis, os sons loquazes e heróicos de Guerra e Paz. Em horas colcheias de sol.
Usar uma metáfora musical para descrever a obras de dois génios da literatura é algo que talvez possa provocar certa surpresa. Mas, depois, pensando bem, acho que se percebe e talvez não seja assim tão surpreendente. Afinal, a música escreve-se; e na literatura, o que se faz, se não compor?
