Sábado, 26 de Janeiro de 2008

Um homem escreveu um livro onde só existiam inícios; foi escrito na primeira hora, do primeiro dia, do primeiro ano de um século que se abria. Uma mulher escreveu um livro onde só existiam fins; foi escrito na última hora, do último dia, do último ano de um século que se fechava. São estranhos entre si, estes dois seres; incompletos. Por isso as suas vidas só se cumprirão pela metade. A menos que se cruzem.
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Um outro homem possui apenas dois livros, a isso se resume toda a sua biblioteca. Servem-lhe, à noite, de almofada. Um, é da cor do ónix, e convoca pesadelos infames; o outro, de um verde opalino, abriga sonhos miríficos. Ambos têm guarnições de cabedal e fechos com cintilações metálicas. O homem aguarda, diariamente, pela chegada da noite, numa agonia que contém, em doses perfeitamente iguais, desespero e felicidade. É incapaz de adivinhar, antes de adormecer, o que lhe reservam os dois incunábulos: se o mais o puro horror, ou a mais absoluta magia. Apenas sabe que não pode esperar nada de intermédio. E nisso consiste o seu diário purgatório.
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Há um livro, de uma edição de doze, que em nada difere das suas restantes onze cópias. Foram todos impressos na mesma tipografia, têm idêntico número de páginas, o mesmo desenho de uma valquíria nas capas pardas e quebradiças. E são, todos os doze, povoados por letras góticas floreadas, desenhadas por tipos semi-gastos, em que o d perdeu a sua haste e onde ao f lhe falta o redondo da curvatura. Apenas por um facto inquietante aquele livro se destaca dos outros símiles. Só o possuíram até ao momento homens culpados e torturados, capazes das mais atrozes acções. Algo naquele exemplar magnetiza os olhares mais torpes e lhes faz sentir a urgência da posse. Sentem que tem de ser seu, ainda que para isso tenham de roubar ou matar. Desconhece-se o porquê dessa sensação desmedida. Se porque nele vislumbram a faísca negra da cupidez ou porque entrevêem o fulgor alvo da redenção.
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(Há viagens de autocarro que não deviam ter fim, dias em que a chuva não devia deixar de cair, momentos em que o fluxo dos pensamentos não devia ser interrompido; alturas em que a dúctil substância que compôe os sonhos devia ganhar volume, espessura, densidade. Tudo conjugado, apenas para que certas ideias voláteis, sobre livros-por-existir, pudessem crescer e ganhar forma.)