Domingo, 17 de Julho de 2005

O título com que foi designado ou, mais apropriadamente, baptizado, este caderno de anotações não é decididamente vulgar. É crível que possa despertar surpresa, espanto ou curiosidade; que possa ser classificado de inverosímil ou pretensioso; ou que, com alguma sorte, suscite o aplauso, o entusiasmo, alguma admiração. Tudo dependendo da sensibilidade, dos humores e da disposição dos que nele acidentalmente esbarrarem, ou dos favores com que algum visitante, ao longo das suas errâncias, nele tropeçando, me queira presentear.

Mas nenhum outro nome poderia haver, nenhum outro melhor me poderia escorrer, para apor em gotejantes letras na capa de um diário. Principalmente quando de um de bordo se trata.

O título não será contudo merecedor de grandes polémicas ou longas perorações. Mais estranhas frases se proferiram antes e outras, por certo ainda mais singulares, se ouvirão depois. Todavia, antecipo-o, haverá detractores. Quem, perante o inusitado da adjectivação usada para qualificar a transitoriedade dos dias, se insurja violentamente, pouco disposto a fazer cedências ou concessões. Quem procure rectificar a inabalável ordem das coisas, repor a imperturbabilidade dos factos, desmistificar logros e embustes. Quem se apresse a denunciar a herética e improvável aliança de conceitos, em tudo ofensiva das naturais leis da física e dos cânones gramaticais. Quem não hesite em retalhar, a finos golpes de bisturi, a poética metáfora dos dias que não correm, mas escorrem, dos dias que não se volvem, mas, antes, se dissolvem.

Os cépticos (é deles que falo), sabe-se de fonte segura, encontram-se por toda a parte. Reconhecem-se facilmente por preferirem sempre as sólidas, às líquidas evidências. Espero, por isso, que se mantenham, avisadamente, ao largo.

Todos os outros, os que mergulham fundo na correnteza dos dias, procurando reter cada gota, sorver cada húmida partícula de tempo, serão, escusado dizê-lo, bem vindos a esta viagem. Viagem que se deseja sem rota, nem destino marcados; jornada de longo curso de onde estarão ausentes todas as bússolas, quadrantes ou planisférios. Viajar-se-á, portanto ao livre sabor da corrente. Apenas um desígnio, um único objectivo expedicionário: isolar da copiosa corrente que nos submerge, cada vez mais e mais veloz, algumas gotas. De todas, as mais preciosas. E tentar evitar que para sempre se desvaneçam; tentar evitar que para sempre se evaporem.