Sábado, 25 de Setembro de 2010

(Com frequência me perco, em partes incertas, dentro e fora de mim; com frequência, me sucede durar longo tempo esse descaminho. Mas, de quando em quando, encontro um fio, que sempre sigo, e que me traz invariavelmente aqui. O que fará de mim uma qualquer espécie de general, perdido e sem exército; e deste local, o meu particular labirinto.)
Sexta feira, 10 de Abril de 2009

O que faz de um pequeno relato um conto está longe de ser apenas o seu tamanho, ao contrário do lugar comum prevalecente. Um conto é a soma algébrica de três factores: urgência, ambivalência, simetria. Por isso, são exemplos clássicos do género quase todas as histórias de Chesterton, das policiais às fantásticas, ou as de Allan Poe, ou as de Flaubert, para citar autores de diferentes latitudes. Tchekov, Borges e Kafka não contam como exemplos, porque são insuperáveis, e não seria justo para os restantes.
Dito isto, não percebo a admiração por Flannery O’Connor. Reconheço nos seus escritos a brevidade; certamente praticou como poucos a duplicidade, essa vaga noção atmosférica; o problema é que ignoro nas suas curtas páginas o obscuro lugar onde escondeu a simetria.
Quinta feira, 09 de Abril de 2009

Reorganizo-me, devagar. Enquanto isso, desorganizo as minhas leituras; adiro ao fragmento: pedaços de poesia, contos avulsos, trechos de meditações filosóficas. Ou uma semana passada entre Sílvia Plath, G. K. Chesterton e Nietzsche.
Segunda feira, 23 de Março de 2009

A medievalidade preferiu sempre as lágrimas, usadas para lavar as almas, ao riso, que as incendiava. Por essa razão não creio que tenha sido Dante a percutir o Renascimento. Dante continuou a fazer chorar os homens e a supliciá-los; insistiu em mostrar-lhes os círculos Infernais e as penas que os aguardavam na outra vida; nunca deixou de lhes lembrar os seus vícios. Apesar de tudo isso, ou por causa de tudo isso, chamou à sua obra Divina Comédia. Mas foi Giovanni Bocaccio, com o seu Decammeron, quem os pôs, pela primeira vez em muitos séculos, outra vez a rir.
Domingo, 15 de Março de 2009

Pitágoras e depois dele os seus discípulos, pitagóricos e neo-pitagóricos, viram no universo uma construção matemática. À sua maneira, Galileu, Descartes, Pascal, Leibnitz e Newton fizeram o mesmo. Como também o fez Einstein. A ser verdade, tudo, até a literatura que é tecida de letras, se resume a números e formas geométricas. Nesse caso, acredito que um romance será uma linha recta; uma novela, um segmento; os contos não serão senão círculos; e o teatro corresponderá a uma elipse, cuja largura da trajectória depende da qualidade das peças. A poesia, de todos os géneros, mesmo quando disfarçada de prosa, é a que tem a forma mais fluida, mas também a mais nítida: trata-se de uma linha espiralada. Interminável, não periódica, sempre ascendente.
Domingo, 14 de Dezembro de 2008

Consumo cinema, como leio: com prazer, com avidez, com consequências. Os livros que li e os filmes que vi afectam a visão que tenho do mundo, dos outros, de mim mesmo. Mas nunca, até ontem, apesar de me habitarem livros e filmes, tinha percebido que fotogramas pudessem ser folheados, que um campo/contracampo se pudesse assemelhar à alternância de dois parágrafos, que um travelling equivalesse a um encadeamento de letras, de palavras, de frases, de períodos; que os racords na montagem pudessem ser espaços, mudanças de página, pontuação. Mas só ontem vi Il Gattopardo, de Visconti; e, por isso, só ontem o fiquei a saber.
Em rigor, não foi esta a primeira vez que assisti ao filme, mas foi esta a primeira vez que o vi, o que parecendo diferença pouco substancial é, na verdade, tudo o que importa. Foi há muito, demasiado tempo, a minha primeira experiência com Il Gattopardo – não conheço título mais belo para um filme ou para um livro –, e tinha quase tudo esquecido entretanto: porque era demasiado novo, porque vi a amputadíssima versão inglesa, porque me faltaram, na altura, o grande écrãn, o technirama e o technicolor, porque não tinha visto suficientes interpretações para avaliar o superlativo desempenho de Burt Lancaster, mas, acima de tudo, porque não tinha lido o sumptuoso e decadente romance de Lampedusa, transposto do papel para a tela por Visconti.
Percebi, finalmente, que um filme pode ter a densidade de um livro, o cheiro da tinta, a rugosidade áspera do papel.
Sábado, 02 de Fevereiro de 2008

Sou uma multidão. E por vezes perco-me na multidão que sou. Claro que eu sou eu. Mas sendo eu (e isso já não é ser pouco, porque cada dia, cada hora, cada minuto, sou um eu diferente), não sou apenas eu. Sou também quem os outros pensam que sou. E porque cada um tem uma ideia diferente de quem sou, serei pelo menos, nessa conformidade, para além de mim, tantos quantos aqueles que me conhecem (o que não será afirmação totalmente segura, porque se todos os que me conhecem tiverem, como eu, vários eus, então, cada um desses eus terá concerteza uma ideia diferente de mim, pelo que serei muitos mais). Mas como se não me bastasse ser tantos, sou ainda mais alguns. Porque sou também aqueles que penso que os outros pensam que sou.
No meio de toda essa gente que transporto comigo, havia uma única certeza que possuía. Não, obviamente, sobre quem sou. Mas sobre como me chamo. O meu nome era o único denominador comum a cada um dos meus eus; era um refúgio, um triste arremedo de unidade. Mas, desenganei-me. Ou melhor, Mário de Sá-Carneiro, desenganou-me. Cito-o, em Nome de Guerra: « Ser homem ou mulher é apenas a natureza; chamar-se João ou Manuela já é a natureza mais a vida inteira: é o problema. E se o João é Sousa e a Manuela é Pereira, então, à natureza e à vida junte-se-lhes ainda por cima a existência e complicou-se o problema. Ser Sousa ou Pereira ou outros apelidos quaisquer é logo uma árvore genealógica tamanha que, embora o próprio a desconheça, tem sempre muito que se lhe diga». Acabei de comprender que não sou apenas os muitos que sou: sou também aqueles, tantos, que foram antes de mim.
Agitado por essa compreensão, só me apetece suspirar, em coro, como Bernardo Soares, ajudante de Guarda-livros na cidade de Lisboa: «Felizes os que sofrem com a unidade! Aqueles a quem a angústia altera mas não divide, que crêem, ainda que na descrença, e podem sentar-se ao sol sem pensamento reservado».
Sábado, 26 de Janeiro de 2008 (III)

Gosto mais de Calvino do que posso ou consigo admitir. É talvez o escritor de que mais gosto. Sei que já disse isso antes, de outros. De Saramago, por exemplo. Como de Torrente Ballester, como de Pessoa, como de Dostoyevsky, como de Borges, como de Philip Roth, como de Kafka. Mas, por qualquer razão que me escapa, não vejo em nenhuma dessas afirmações nem qualquer falsidade, nem qualquer inverosimilhança. Acho que sou monógamo na vida, porque sou polígamo na literatura, onde amo vários. Se assumo aqui, em toda a sua indecorosa exuberância, a minha promiscuidade amorosa com tantos autores, a honestidade obriga a que seja muito mais púdico quanto a pronunciar-me sobre o livro da minha vida. Há apenas um a quem amo antes de todos. Tem um nome, claro: As Cidades Invisíveis; e um pai: Italo Calvino. Eu chamo-lhe, confessionalmente, O Livro do Deslumbramento. Podia falar sobre o livro para expôr as razões do meu encantamento. Podia fazê-lo, de facto, falar do meu maravilhamento interminável com todas essas cidades impossíveis, todas com nomes de mulheres (Isidora, Sofrónia, Zirma, Diomira, Leandra, Clarice, Anastásia, Irene, Raissa, Andria, Sibila, Tecla, Zora, Teodora, Berenice, Despina, Ersília, Doroteia, Zobaida, Tamara, Valdrada, Fedora, Zenóbia,...), que Marco Pólo descreve ao Khan. Fá-lo-ia com demora, certamente com deleite. Citaria passagens suas: das cidades subtis, das cidades e os sinais, das cidades e a memória, das cidades contínuas, das cidades ocultas, das cidades e o desejo, das cidades e os mortos, das cidades e as trocas, das cidades e o céu, das cidades e os olhos, das cidades e o nome. Quem sabe poderia transcrever todo o livro na íntegra, na ânsia de explicar porque tanto o releio. Mas isso seria tentar explicar o amor. Que é algo para o qual não há explicação. Nem na vida, nem na literatura. Não se explica a transcendência.
Sábado, 26 de Janeiro de 2008 (II)

Umberto Eco num dos seus ensaios (acho que no Seis passeios pelos bosques da ficção, mas também pode ter sido no Sobre literatura) esboçava uma tipologia de leituras. Não consigo reproduzir com exactidão as suas palavras, mas seguramente retive o seu sentido. Dizia o autor do Nome da Rosa que havia dois tipos de livros, à revelia da sua qualidade literária: aqueles que se podem ler numa vertigem e cujo prazer se retira da velocidade que nos impôem; e aqueles que se lêem demoradamente, cuja fruição advém precisamente do ritmo pausado com que nos tolhem o avanço. Obviamente que estes são casos extremos, tipos ideais. A maior parte dos livros revela, voluntária ou involuntariamente, a presença de fenómenos de hibridismo, alternando, a bem do interesse pela narrativa, acelerações mais ou menos bruscas, que contraem o tempo, com abrandamentos e desacelerações, que o estendem.
Dois livros que li recentemente ilustram exemplarmente esta tese e representam dois casos nas antípodas um do outro, correspondendo às manifestações de ambos os padrões, praticamente no seu estado mais puro. Sublinho que gostei bastante de ambos e que, tanto um como outro, recompensam o leitor.
Arthur & George, de Julian Barnes, é centrípeto na maneira como nos atrai constantemente para o seu vórtice. A linguagem é viva, simples e desempoeirada, a estrutura narrativa é estimulante e inovadora, há ironia e passagens divertidas, sem que dele esteja ausente, antes pelo contrário, um recorte psicológico fino das personagens ou o debate de questões morais, de costumes, de posicionamentos diversos face à vida. Está mesmo repleto de meditações filosófico-religiosas. Misto de policial, de ensaio, de romance histórico vitoriano, de biografia, não nos deixa nunca: qualquer momento sem ele é um momento em que sentimos a sua falta.
O Mar, de John Banville não poderia ser mais diferente. É centrífugo, expulsa-nos para fora dele próprio. A leitura é exigente, por vezes árdua, o avançar é sempre lento e clama, a todo o tempo, por pausas. Curiosamente, o romance de Banville é muito menor do que o de Barnes, aproximadamente metade da dimensão, mas a sua leitura é bem mais demorada, aproximadamente o dobro do tempo. Onde um presenteia com estímulos, o outro só oferece desconforto. Cada frase d’O Mar é uma armadilha que se estende no caminho. Há uma profundidade que habita o fraseado e que nunca se cessa de sentir. Fala da condição humana, da infância e da velhice, da memória e da perda. Interrogamo-nos mais vezes, relemos constantemente, meditamos mais tempo e há uma densidade que nunca conseguimos anular. Paramos, somos obrigados a parar, porque é impossível continuar; porque não se consegue avançar em carne viva; porque respirar é preciso e não se aguenta tanto tempo submerso. Especialmente em apneia.

(Quando falo de livros com alguém, ou mesmo quando aludo a eles aqui, neste sítio onde os dias escorrem, enuncio-os sempre pelo nome, seguido da enunciação do autor: Uma Cerveja no Inferno, de Rimbaud, por exemplo. Uma espécie de santo e senha, a que sou fiel. Mas no caso do livro de Banville nunca o fiz. Quando me perguntavam o que estava a ler, respondia apenas: «O mar!». Acho que nunca disse nada tão grandioso, como nessa altura, quando era submetido aos interrogatórios curtos dos amigos. Experimentei variações: que estava a ler o mar; que levava o mar comigo para toda a parte, debaixo do braço; que só pensava no mar; que à noite, depois de me despir, meter entre os lençóis e ligar a luz, abria o mar à minha frente e virava as suas páginas... Acho que nunca disse nada tão grandioso, de facto. Mas acho que também ninguém reparou.)
Sábado, 26 de Janeiro de 2008

Um homem escreveu um livro onde só existiam inícios; foi escrito na primeira hora, do primeiro dia, do primeiro ano de um século que se abria. Uma mulher escreveu um livro onde só existiam fins; foi escrito na última hora, do último dia, do último ano de um século que se fechava. São estranhos entre si, estes dois seres; incompletos. Por isso as suas vidas só se cumprirão pela metade. A menos que se cruzem.
...
Um outro homem possui apenas dois livros, a isso se resume toda a sua biblioteca. Servem-lhe, à noite, de almofada. Um, é da cor do ónix, e convoca pesadelos infames; o outro, de um verde opalino, abriga sonhos miríficos. Ambos têm guarnições de cabedal e fechos com cintilações metálicas. O homem aguarda, diariamente, pela chegada da noite, numa agonia que contém, em doses perfeitamente iguais, desespero e felicidade. É incapaz de adivinhar, antes de adormecer, o que lhe reservam os dois incunábulos: se o mais o puro horror, ou a mais absoluta magia. Apenas sabe que não pode esperar nada de intermédio. E nisso consiste o seu diário purgatório.
...
Há um livro, de uma edição de doze, que em nada difere das suas restantes onze cópias. Foram todos impressos na mesma tipografia, têm idêntico número de páginas, o mesmo desenho de uma valquíria nas capas pardas e quebradiças. E são, todos os doze, povoados por letras góticas floreadas, desenhadas por tipos semi-gastos, em que o d perdeu a sua haste e onde ao f lhe falta o redondo da curvatura. Apenas por um facto inquietante aquele livro se destaca dos outros símiles. Só o possuíram até ao momento homens culpados e torturados, capazes das mais atrozes acções. Algo naquele exemplar magnetiza os olhares mais torpes e lhes faz sentir a urgência da posse. Sentem que tem de ser seu, ainda que para isso tenham de roubar ou matar. Desconhece-se o porquê dessa sensação desmedida. Se porque nele vislumbram a faísca negra da cupidez ou porque entrevêem o fulgor alvo da redenção.
...
(Há viagens de autocarro que não deviam ter fim, dias em que a chuva não devia deixar de cair, momentos em que o fluxo dos pensamentos não devia ser interrompido; alturas em que a dúctil substância que compôe os sonhos devia ganhar volume, espessura, densidade. Tudo conjugado, apenas para que certas ideias voláteis, sobre livros-por-existir, pudessem crescer e ganhar forma.)
Quinta, 29 de Novembro de 2007

Aos uinte e nove de Nouembro do ano 2007 da graça do señor Jesu Xpo,

faço sabeer que as nouidades q correm pelo reyno teem hum incontestauel cunho de uerdade e q a doaçom regia se confirma. A todos os q congratularam por missiua este uosso dedicado seruo faço sabeer q estou mui grato pela alembrança.
Registo q poucos seraao os que teem o priuilégio de haver hum cronista a fazer fee dos seus valorosos feytos... Ao dicto prezado cronista q uistoria os annais das coisas mui secretissimas e os reuela a toda aa coorte, sou particularmente deuedor do seeu permanente apoio e da confiança inabalauel q seempre me deu muuita proua, beem como da sua franca amizaade, que retribuuo em pelo menos iguaal, se nao mayor, mensura.
Atee breue a todos, certo que os poderei cobrir de amplexos, aos señores, e de osculos, aas damas, em hua proxima ocasiam, que faço uotos seja mui breue.
Sábado, 13 de Outubro de 2007

Reflicto nas persistentes alusões a livros, mais ou menos arbitrárias, mais ou menos desconexas, mais ou menos recursivas, que inundam Os Dias Escorrentes (uma reflexão, ela própria, com o seu quê de arbitrário, desconexo e de recursivo). Estabelecido o facto sem sofismas, começa a esboçar-se na minha mente um projecto, com tanto de fantástico, como de inequivocamente pessoal: ensaiar uma reforma do calendário. As minhas reminiscências literárias seriam utilizadas, nesse caso, como marcos cronológicos para a datação de acontecimentos biográficos, mais eficazes, estou certo, do que as actuais tabelas gregorianas ou as antigas julianas para uma medição rigorosa do meu íntimo fio do tempo. Alcançaria, desse modo, fazer esquecer as noções - em tudo indistintas e amnésicas, cardinais sem alma - de dias, meses e anos; de lustros, décadas e séculos que, por universal equívoco, se presumem propícias para proceder à mensurabilidade dos dias.
Projecto fugaz e sem futuro, tão rapidamente esconjurado, como conjurado. Abandono a ideia, num ápice, vergonhosamente consciente da sua insensatez, do delírio do prodígio, do egocentrismo da maquinação. Mas, caso persistisse no intento, tivesse eu essa ousadia característica dos loucos e que é, ao mesmo tempo, a marca inconfundível dos espíritos geniais, a data de hoje não figuraria no calendário como o dia 13 de Outubro de 2007; passaria à posteridade como o dia, inesquecível entre todos, em que li A Invenção de Morel, do argentino Adolfo Bioy Casares. Livro-ilha, mas também livro-mecanismo, em que se narra a história de um proscrito e de um inventor que buscam, à vez, num engenho mecânico, alcançar os seus sonhos de imortalidade e de amor.
Quinta feira, 04 de Outubro de 2007

De Mishima, Yukio, sei pouco. Sei apenas o que dele diz a contracapa castanha de um livro tão castanho como ela: que era japonês, novelista e dramaturgo; que se suicidou, espectacularmente, aos 45 anos de idade; que Kimitake Hiraoka, se velava atrás de um pseudónimo literário.
Mas, do pouco que sei de Mishima, Yukio, sei-lhe a angústia do esteta. Sei que para ele belo e horrível, não eram verso e reverso, estranhos de costas voltadas, mas irmãos inseparáveis; sei que achava que um marinheiro nunca deve renegar o mar, trocar a firmeza das suas ondas pelo balancear agitado que o sacode em terra; sei que para ele a vida só continha duas estações; e que sabia, no mais profundo do seu ser, que ao Verão se sucede, inexorável, o Inverno.
Segunda, 01 de Outubro de 2007

Sempre preferi a companhia de romancistas e novelistas, àquela que ofereciam contistas e poetas. Achava que faltava a estes últimos substância, solidez, fôlego; numa palavra, densidade. Para além disso, razão que não é de pormenor, quando estou com amigos gosto de conversas demoradas, procuro prolongar-lhes a companhia, estender as horas, domesticá-las, torná-las mansas e lentas. No contista considerava ofensiva a economia com as palavras, a contenção das emoções, o ser tão parco nas descrições, a brusquidão das despedidas; já com os poetas era diferente, emoções a rodos cavalgando palavras exíguas, as conversas demasiado perturbadoras, onde avultava a propensão para a divagação, para o solilóquio, para o delírio.
Em certa ocasião, talvez sedento de companhia, ou porque sentisse, por uma vez, vacilar a confiança na minha infalibilidade literária, cedi. E franqueei a entrada na minha vida a dois contistas – Calvino e Borges – e a um poeta – Pessoa. Fosse eu dado a acessos de misticismo diria que se tratara de uma epifania; assim, contento-me com uma mais pagã e prosaica explicação: a de que a roda da fortuna nem sempre nos traz infelicidade. De há muito a esta parte são eles que me acompanham todos os dias, que me velam à noite, durante o sono, e que me induzem sonhos enigmáticos, balbuciantes e labirínticos. Por vezes sucede ignorá-los, acto reflexo de um bibliómano com gosto pelo épico e pelo monumental, incorrigível amante de Tolstoi e de Cervantes. Mas torno-lhes sempre, quando me quero reconciliar. Não com os próprios, que me entendem antes de mim. Nem sequer com a poesia ou com o conto. Mas com a musicalidade das palavras, com a magia das letras, com a intensidade literária da vida.
Domingo, 30 de Setembro de 2007

Ubicumque sit res, pro domino suo clamat
(Onde quer que esteja a coisa, clama pelo seu dono)