Consumo cinema, como leio: com prazer, com avidez, com consequências. Os livros que li e os filmes que vi afectam a visão que tenho do mundo, dos outros, de mim mesmo. Mas nunca, até ontem, apesar de me habitarem livros e filmes, tinha percebido que fotogramas pudessem ser folheados, que um campo/contracampo se pudesse assemelhar à alternância de dois parágrafos, que um travelling equivalesse a um encadeamento de letras, de palavras, de frases, de períodos; que os racords na montagem pudessem ser espaços, mudanças de página, pontuação. Mas só ontem vi Il Gattopardo, de Visconti; e, por isso, só ontem o fiquei a saber.
Em rigor, não foi esta a primeira vez que assisti ao filme, mas foi esta a primeira vez que o vi, o que parecendo diferença pouco substancial é, na verdade, tudo o que importa. Foi há muito, demasiado tempo, a minha primeira experiência com Il Gattopardo – não conheço título mais belo para um filme ou para um livro –, e tinha quase tudo esquecido entretanto: porque era demasiado novo, porque vi a amputadíssima versão inglesa, porque me faltaram, na altura, o grande écrãn, o technirama e o technicolor, porque não tinha visto suficientes interpretações para avaliar o superlativo desempenho de Burt Lancaster, mas, acima de tudo, porque não tinha lido o sumptuoso e decadente romance de Lampedusa, transposto do papel para a tela por Visconti.
Percebi, finalmente, que um filme pode ter a densidade de um livro, o cheiro da tinta, a rugosidade áspera do papel.
Domingo, 14 de Dezembro de 2008

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