Sábado, 26 de Janeiro de 2008 (II)

Umberto Eco num dos seus ensaios (acho que no Seis passeios pelos bosques da ficção, mas também pode ter sido no Sobre literatura) esboçava uma tipologia de leituras. Não consigo reproduzir com exactidão as suas palavras, mas seguramente retive o seu sentido. Dizia o autor do Nome da Rosa que havia dois tipos de livros, à revelia da sua qualidade literária: aqueles que se podem ler numa vertigem e cujo prazer se retira da velocidade que nos impôem; e aqueles que se lêem demoradamente, cuja fruição advém precisamente do ritmo pausado com que nos tolhem o avanço. Obviamente que estes são casos extremos, tipos ideais. A maior parte dos livros revela, voluntária ou involuntariamente, a presença de fenómenos de hibridismo, alternando, a bem do interesse pela narrativa, acelerações mais ou menos bruscas, que contraem o tempo, com abrandamentos e desacelerações, que o estendem.
Dois livros que li recentemente ilustram exemplarmente esta tese e representam dois casos nas antípodas um do outro, correspondendo às manifestações de ambos os padrões, praticamente no seu estado mais puro. Sublinho que gostei bastante de ambos e que, tanto um como outro, recompensam o leitor.
Arthur & George, de Julian Barnes, é centrípeto na maneira como nos atrai constantemente para o seu vórtice. A linguagem é viva, simples e desempoeirada, a estrutura narrativa é estimulante e inovadora, há ironia e passagens divertidas, sem que dele esteja ausente, antes pelo contrário, um recorte psicológico fino das personagens ou o debate de questões morais, de costumes, de posicionamentos diversos face à vida. Está mesmo repleto de meditações filosófico-religiosas. Misto de policial, de ensaio, de romance histórico vitoriano, de biografia, não nos deixa nunca: qualquer momento sem ele é um momento em que sentimos a sua falta.
O Mar, de John Banville não poderia ser mais diferente. É centrífugo, expulsa-nos para fora dele próprio. A leitura é exigente, por vezes árdua, o avançar é sempre lento e clama, a todo o tempo, por pausas. Curiosamente, o romance de Banville é muito menor do que o de Barnes, aproximadamente metade da dimensão, mas a sua leitura é bem mais demorada, aproximadamente o dobro do tempo. Onde um presenteia com estímulos, o outro só oferece desconforto. Cada frase d’O Mar é uma armadilha que se estende no caminho. Há uma profundidade que habita o fraseado e que nunca se cessa de sentir. Fala da condição humana, da infância e da velhice, da memória e da perda. Interrogamo-nos mais vezes, relemos constantemente, meditamos mais tempo e há uma densidade que nunca conseguimos anular. Paramos, somos obrigados a parar, porque é impossível continuar; porque não se consegue avançar em carne viva; porque respirar é preciso e não se aguenta tanto tempo submerso. Especialmente em apneia.

(Quando falo de livros com alguém, ou mesmo quando aludo a eles aqui, neste sítio onde os dias escorrem, enuncio-os sempre pelo nome, seguido da enunciação do autor: Uma Cerveja no Inferno, de Rimbaud, por exemplo. Uma espécie de santo e senha, a que sou fiel. Mas no caso do livro de Banville nunca o fiz. Quando me perguntavam o que estava a ler, respondia apenas: «O mar!». Acho que nunca disse nada tão grandioso, como nessa altura, quando era submetido aos interrogatórios curtos dos amigos. Experimentei variações: que estava a ler o mar; que levava o mar comigo para toda a parte, debaixo do braço; que só pensava no mar; que à noite, depois de me despir, meter entre os lençóis e ligar a luz, abria o mar à minha frente e virava as suas páginas... Acho que nunca disse nada tão grandioso, de facto. Mas acho que também ninguém reparou.)