Terça, 27 de Dezembro de 2005

O mais surpreendente para o leitor que se aventura na épica tarefa da leitura do poema bélico que é, antes do mais, a Ilíada, é o seu imoderado, excessivo, desmedido VOLUME.
A referência ao volume da obra é aqui menos consequência das suas numerosas páginas, dos seus XXIV extensos cantos ou dos seus profusos 15.693 versos em hexâmetro dactílico, do que do som retumbante que se desprende do interior tumultuoso das suas páginas. Compulsar as folhas da Ilíada, abri-las ao acaso, é mergulhar num turbilhão de som e de fúria; é ser arrastado para um inescapável vórtice ruidoso de violência, de pó e de sangue; é penetrar numa caixa de ressonância onde deuses e guerreiros têm os seus gritos e estertores amplificados milhares de vezes.
É por isso que a Ilíada não se lê. Escuta-se.
(Ou não fosse ela a fiel depositária de uma longa tradição oral, a memória escrita e cristalizada do canto sucessivo de gerações de poetas que mantiveram vivos os feitos lendários do cerco de Tróia.)
Na narração feita dos sucessos da Guerra de Tróia o fragor das batalhas é uma constante, reina omnipresente e está sempre bem audível. Por vezes, propaga-se no mar, onde galés sopradas pelo vento se agitam, os cordames soluçando, as tábuas do convés rangendo; em outros momentos esbarra, estrondeando, nas muralhas que envolvem a sitiada Ilíon, sendo novamente rechaçado para o meio do combate. Aí o tropel dos cavalos mistura-se amiúde com o retinir das armas, esgrimidas com violência inaudita. Os corpos dos heróis troianos e gregos ao serem trespassados por gumes cortantes, volteiam no ar, sibilando, até morderem o pó com ruídos surdos (pois na Ilíada até a surdez é ruidosa). E homens e deuses rivalizam nos incentivos e nos incitamentos à vitória, no choro pelos caídos em combate, nos gritos de celebração quando derrotam os oponentes em combates individuais ou em sanguinolentas chacinas colectivas. Mesmo quando, a espaços, a batalha é interrompida e se realizam concílios, as vozes sobem de tom, a discórdia estala e as altercações irrompem com estrépito.
E, eis que num ápice tudo recomeça, e se repete canto após canto: o entrechocar dos contendores, o despedaçar dos membros, os urros lancinantes, as preces sonoras lançadas aos deuses imortais.
Mas Homero, o enigmático Homero - que, na geografia das palavras escandidas, está nas antípodas de um outro poeta, o luso Pessoa; aquele, múltiplo que se tornou um, este outro, um que se fez múltiplo - manejava com mestria a arte do contraste.
É nos seus raros momentos de quietude que a Ilíada, um canto de guerra, belicoso, cru, violento e brutal se transforma em algo de verdadeiramente admirável, que comove e perturba. Então, só então, é que a obra se torna finalmente bela, universal e imorredoura. Nesses breves instantes em que o poeta cala o canto da cólera funesta de Aquiles e se dedica a cantar o destino infortunado de Heitor, é que o poema, para infinita tragédia de quem o lê, se torna seu, pessoal e intransmissível. É aí que o envolve, seduz e apaixona.
Tenho para mim que foi Heitor que, secretamente, Homero mais estimou de entre todos os seus heróis (e de todos quem, senão ele, era mais estimável?). E confesso que não conheço nada de mais comovente na literatura ocidental do que os momentos narrados na Ilíada centrados na figura do líder troiano. Em si, ele corporiza os valores mais elementares da condição humana, aqueles que permitem perceber o que une os homens de hoje aos de há 2800 anos e compreender que afinal tão pouco mudou em tantos séculos. É em Heitor que radica a actualidade da Ilíada.
Duas passagens que o testemunham são a despedida de Heitor de sua mulher Andrómaca e de seu filho Astianax, antes da partida para a guerra

Então se riram o pai amado e a excelsa mãe:
E logo da cabeça tirou o elmo o glorioso Heitor,
E depô-lo, todo ele coruscante, no chão da casa.
De seguida beijou e abraçou o seu filho amado
E a Zeus e aos outros Deuses dirigiu esta oração:

“Ó Zeus e demais deuses, concedei-me que este meu filho
Venha a ser como eu, o melhor entre os Troianos, que seja tão
Ilustre pela força e que pela autoridade seja Rei de Ilíon.
Que de futuro alguém diga ‘este é muito melhor que o pai ’. ”


e o resgate feito do seu corpo, junto de Aquiles, quando já jazia sem vida, pelo velho Príamo, seu pai

"Portanto irei, e vã não será a palavra. Se for meu destino
Morrer junto das naus dos Aqueus vestidos de bronze,
É isso que quero. Que logo de seguida Aquiles me mate,
Depois de eu ter abraçado o meu filho e ter satisfeito o meu desejo de chorar”


Heitor, o troiano, o que sai morto e vencido da refrega nas praias tintas de sangue de Tróia, é, afinal, o vencedor no jogo da imortalidade e dos afectos. Ele é a encarnação do pai dedicado, do filho pródigo, do irmão protector, do chefe inspirado de um povo.
Foi por isso a ele, ao desventurado Heitor, e não ao colérico e funesto Aquiles, quem eu aprendi a amar na Ilíada. Foi ao seu lado que combati, troiano entre os troianos. Foi com a sua morte que chorei. E foi por ele que me enlutei, quando finalmente todos os sons da batalha se extinguiram e o silêncio, por uma única vez se fez ouvir, ao abater-se sobre a bela e ventosa Ilíon. Aconteceu no dia em que se realizou o funeral de Heitor, o domador de cavalos.
Sexta, 09 de Dezembro de 2005

cor, cordis (lat): enunciação da quarta declinação, tema em consoante, do género neutro; significa coração.
Proceder à etimologia das palavras, conhecer a sua raíz, é um exercício analítico, de desconstrução. Implica um paciente trabalho de alvenaria sobre o vocábulo, semelhante ao do escultor que, agindo sobre a bruta matéria-prima, a liberta das suas excrecências, separando essencial e acessório, a fim de isolar o seu núcleo primitivo. Revelando nesse acto de subtracção toda a beleza da obra, tornada visível pela simplificação da matéria.
Processo homólogo ocorre com as palavras. Que ganham uma nova dimensão encantatória quando as observamos, uma vez lapidadas, depuradas dos seus excessos, libertas do bloco maciço a que estavam confinadas, expostas na sua integral nudez. Cor, raíz latina da palavra coração, é o radical de duas outras igualmente belas palavras da língua portuguesa: recordar e acordar. A primeira significando voltar ao coração, local onde se arquivam as memórias felizes, na urgência da sua recuperação; a segunda, significando abrir o coração ao mundo, ritual matinal e circular que se repete no ser humano, até ao dia do seu último suspiro.
Depois que tomei consciência de que o que me acontece diariamente, ao acordar, é o pequeno milagre da abertura de um coração ao mundo, todos os dias me levanto um nadinha mais feliz.
Ainda que invariavelmente ensonado.