Os olhos humedecem-me e enevoam-se, cada vez com mais frequência. Saio de casa, sempre impreparado para as borrascas e as intempéries oculares, confiante nas previsões de pupilas secas e olhos pouco nublados que se debitam amiúde, especialmente durante as estações de poucas chuvas, como a presente. Acontece que o meu saco lacrimal não é digno de confiança, sempre pronto que está a transbordar, qualquer que seja a época do ano ou o número de dioptrias.
Poucos dias atrás encontrava-me, sonolento, no aeroporto quase deserto, esperando pelo último voo da madrugada. Enquanto esperava, o olhar – ainda seco – ocupava-se de trivialidades, num vai e vem perpétuo e dissimulado, em que me esforçava por enganar o tempo. E foi quando percorria o terminal abandonado, pela enésima vez, que senti o caudal de lágrimas a aumentar, a adensar-se, a subir, imparável, até a água me atingir, de rompante, os olhos. Espraiou-se sobre eles, com abundância, saturando-os de sal e ternura. Uma rapariga e uma rosa esperavam alguém (um pai, uma amiga, um amante,...) nas chegadas. Ambas lindas, ansiosas, perfumadas e escarlates.
Acaba um outro episódio de A Educação de Max Bickford. Ainda emocionado, paro. Olho para trás e leio o que escrevi antes. Não chega, não é suficiente! Penso. Reflicto. E refraseio:
A vida é inspiração e expiração. A Educação de Max Bickford é inspiradora. Quando acaba, expiro fundo.
A melhor série de televisão que vi nos últimos 31 anos passa no canal 2, de segunda a sexta-feira, quando os dias se despedem. Pode-se achar que é exagero. Mas quando se ama, perde-se o Norte. Eu, por mim, estou perdido. De amores.
As séries de televisão – como os verbos – conjugam-se. Em várias pessoas e em diferentes tempos. No singular e no plural; no pretérito ou no presente, no futuro ou no condicional.
Eu, noite após noite, ao bater exacto das 23:30, cesso de usar o verbo irregular do zapping para conjugar, sem omissões e com irrepreensível diligência, A Educação de Max Bickford. Faço-o sempre na primeira pessoa do singular, num tempo serial mais-que-perfeito. Quarenta e cinco minutos de puro enlevo e deliciosa letargia quotidiana, apreciados serenamente na reconfortante mansidão do lar.
Por feliz paradoxo gramatical, o mundo imperfeito de Bickford revelou-se a mais que perfeita forma de colocar um ponto final parágrafo nos dias que sobre mim se fecham.
Sempre que posso, viajo. Mergulho, então, em vertiginosas e acrobáticas quedas livres pelos interstícios do espaço e do tempo. Mas, nem sempre fui capaz de o fazer, pois o segredo das viagens espácio-intemporais esteve-me vedado durante toda a infância e parte da adolescência. Se hoje o faço, se me desloco a velocidades fotónicas apenas para ver explodir super-novas azuis ou gigantes brancas, é à Galáctica que o devo. A ela. Só a ela.
Da primeira vez que viajei pela infinitude astral não estava sequer seguro do que fazia, nem tão-pouco da justeza da minha missão, muito menos da fidelidade dos meus companheiros de jornada. Dificilmente seis ou sete garotos a tripular caixas de fruta vazias, tendo como hangar de saída uma mercearia de esquina, serão a esquadrilha indicada para derrotar uma miríade de olhares ciclópicos, sempre vigilantes, atentos às nossas movimentações, e que, estranhamente, se assemelhavam a familiares e vizinhos. Apesar das adversidades e da desproporção de forças em presença, logo nessa batalha inaugural em que jogámos tudo, saímos vencedores. Muito celebrada, a vitória, porque obtida sem vítimas no nosso lado. Seguiram-se novas batalhas tão saborosas e com vitórias tão categóricas como aquela primeira, ao longo de tórridas noites de verão. O fragor da batalha, esse, era sempre bem audível e prolongava-se até de madrugada.
Mas, pouco a pouco algo aconteceu, algumas baixas ocorreram, companheiros de inúmeras batalhas foram ficando pelo caminho; as caixas de fruta, vazias, a acumularem-se nos cantos. Mais e mais. Cada vez mais. Demasiadas. E hoje, duas décadas depois, só eu resto. Pelo menos, assim o julgo. Não encontro ninguém, a percorrer Aldebaran, Alfa Centauro ou Cassiopeia, enquanto me maravilho com planetas de sóis duplos, faço descongelar calotes polares em planetas gelados ou enfrento temíveis olhares metálicos assassinos.
Por vezes, nos rastros brilhantes de alguns cometas, parece-me reconhecer um rosto de outrora e, no entrechocar de dois asteróides, escutar o sussurro de vozes familiares. São falsas quimeras que alimento. Contudo, hoje, depois de rever a Galáctica, numa quente noite de verão, semelhante a tantas outras do meu passado, tenho uma ténue esperança de que talvez os outros se recordem. De serem Starbuck e Apolo. De enfrentarem cyclops e de pilotarem caças inter-estelares. De buscarem um novo planeta, capaz de abrigar todo um povo em fuga. Se se lembrarem irão concerteza voltar a sair nos velhos caças para trilhar as mesmas rotas astrais de então. E , quem sabe, talvez a velha frota possa ser toda reunida novamente...
Encontrei uma nova musa, depois de ter posto os pés em A Ilha. Confirma-se a verdade iniludível de que as mulheres são fugazes na minha vida. Até as de celulóide.
Adeus, bela Nicole. Olá, maravilhosa Scarlett.
Viagem marcada para a América do Sul! A mente, febril, agita-se perante a perspectiva de um mês inteiro à deriva por todo um sub-continente. E outra vez as mesmas sensações, repetidas até à náusea, antes de qualquer partida. A ansiedade mal contida intercala-se, no espaço de breves segundos, com a angústia da incerteza. E vice-versa. Mutatis mutandis. O desconhecido é atracção e repulsão. Tem tanto de centrípeto, como de centrífugo.
Rumo ao Sul. Percorro, ao ritmo binário do motor trepidante, a vastidão austral incandescente, para onde migraram há muito a Evasão, a Fuga e o Torpor. Sigo, uma vez mais, no seu encalço. Bruce Chatwin, como única companhia, entoando do fundo da mala de viagem, para meu secreto benefício, um canto nómada. O calor evola-se do alcatrão, numa hipnose de canícula, que desassocia os pensamentos. À chegada, a lassidão assalta-me, sem quartel. Dobro, já com dificuldade, a última esquina do caminho, aquela que, côncava, separa o dia da noite. Noite esquiva, fugidia, soluçante, entrecortada. O casulo metálico do automóvel, como única protecção contra o negrume e a incomodidade. Até que a aurora chega, num prenúncio de luz. Busco, então, o areal deserto, juncado de destroços. E sinto o corpo náufrago sulcando a areia, numa sede infinita de Atlântico. Submerjo na massa aquosa, na imensidão líquida. Para depois ser devolvido à vida . O mar azul, azul, a Sul.
Um pintor, saído dos bosques frondosos da imaginação de um escritor italiano, pintava o oceano na sua tela imaculada. Fazia-o da única forma que sabia que ele podia ser pintado, com a própria água do mar como aguarela, o sal como pigmento. Outro pintor, este de carne e osso, feito de fibras, tendões e nervos, conseguiu (invejável feito) fazer melhor. Pintou a América da Grande Depressão em pinceladas de melancolia e nostalgia, usando cores balbuciantes, extraídas de uma paleta de amargura e silêncios. Verteu na tela semblantes fechados, perdidos, deambulando por limbos de luz e sombra, difusos vultos nascendo de chiaro-escuros improváveis. Edward Hopper (1882-1967) operou transformações do real nas suas paisagens pessoais, traçando nelas ténues fronteiras que separavam difusamente imaginário e realidade. Pintor realista, chamaram-lhe, porque retratou de forma crua a desolação de uma geração, de um povo e de um país. Infeliz e desditosa adjectivação para o mais surreal e admirável dos pintores americanos.
O mesmo homem (ou será outro?) saboreia um parágrafo de Susan Sontag. Rola-o no topo do palato, a boca sentindo-lhe a macieza escorreita do discurso. A nervura de uma vírgula conferindo um travo acre-doce às palavras, fazendo intumescer a sua língua – primeiro de amargura e dor, depois de volúpia e prazer. A saliva (abundante) inundando as letras, insinuando-se nelas, percorrendo-as; dando-lhes corpo e amaciando-as, até conseguir quebrar-lhes as asperezas da sintaxe. O homem prolonga a volúpia até onde pode. E depois recomeça. Até estar, finalmente, saciado.
Um homem está sozinho. A noite valsa, lenta e densa, em seu redor. É (julga-se?) o último da sua espécie. A envolvê-lo, a espessura branca do silêncio, que o imobiliza e agride: tenaz, grilhão e algema! Varre-o um ultimo pensamento, derradeiro assomo de nostalgia - invocado por uma balada de Nat King Cole-, antes de se abandonar à mancha alviforme e nela se desfazer: I miss you most of all, my darling / the Autumn leaves start to fall.
