Gosto mais de Calvino do que posso ou consigo admitir. É talvez o escritor de que mais gosto. Sei que já disse isso antes, de outros. De Saramago, por exemplo. Como de Torrente Ballester, como de Pessoa, como de Dostoyevsky, como de Borges, como de Philip Roth, como de Kafka. Mas, por qualquer razão que me escapa, não vejo em nenhuma dessas afirmações nem qualquer falsidade, nem qualquer inverosimilhança. Acho que sou monógamo na vida, porque sou polígamo na literatura, onde amo vários. Se assumo aqui, em toda a sua indecorosa exuberância, a minha promiscuidade amorosa com tantos autores, a honestidade obriga a que seja muito mais púdico quanto a pronunciar-me sobre o livro da minha vida. Há apenas um a quem amo antes de todos. Tem um nome, claro: As Cidades Invisíveis; e um pai: Italo Calvino. Eu chamo-lhe, confessionalmente, O Livro do Deslumbramento. Podia falar sobre o livro para expôr as razões do meu encantamento. Podia fazê-lo, de facto, falar do meu maravilhamento interminável com todas essas cidades impossíveis, todas com nomes de mulheres (Isidora, Sofrónia, Zirma, Diomira, Leandra, Clarice, Anastásia, Irene, Raissa, Andria, Sibila, Tecla, Zora, Teodora, Berenice, Despina, Ersília, Doroteia, Zobaida, Tamara, Valdrada, Fedora, Zenóbia,...), que Marco Pólo descreve ao Khan. Fá-lo-ia com demora, certamente com deleite. Citaria passagens suas: das cidades subtis, das cidades e os sinais, das cidades e a memória, das cidades contínuas, das cidades ocultas, das cidades e o desejo, das cidades e os mortos, das cidades e as trocas, das cidades e o céu, das cidades e os olhos, das cidades e o nome. Quem sabe poderia transcrever todo o livro na íntegra, na ânsia de explicar porque tanto o releio. Mas isso seria tentar explicar o amor. Que é algo para o qual não há explicação. Nem na vida, nem na literatura. Não se explica a transcendência.
Umberto Eco num dos seus ensaios (acho que no Seis passeios pelos bosques da ficção, mas também pode ter sido no Sobre literatura) esboçava uma tipologia de leituras. Não consigo reproduzir com exactidão as suas palavras, mas seguramente retive o seu sentido. Dizia o autor do Nome da Rosa que havia dois tipos de livros, à revelia da sua qualidade literária: aqueles que se podem ler numa vertigem e cujo prazer se retira da velocidade que nos impôem; e aqueles que se lêem demoradamente, cuja fruição advém precisamente do ritmo pausado com que nos tolhem o avanço. Obviamente que estes são casos extremos, tipos ideais. A maior parte dos livros revela, voluntária ou involuntariamente, a presença de fenómenos de hibridismo, alternando, a bem do interesse pela narrativa, acelerações mais ou menos bruscas, que contraem o tempo, com abrandamentos e desacelerações, que o estendem.
Dois livros que li recentemente ilustram exemplarmente esta tese e representam dois casos nas antípodas um do outro, correspondendo às manifestações de ambos os padrões, praticamente no seu estado mais puro. Sublinho que gostei bastante de ambos e que, tanto um como outro, recompensam o leitor.
Arthur & George, de Julian Barnes, é centrípeto na maneira como nos atrai constantemente para o seu vórtice. A linguagem é viva, simples e desempoeirada, a estrutura narrativa é estimulante e inovadora, há ironia e passagens divertidas, sem que dele esteja ausente, antes pelo contrário, um recorte psicológico fino das personagens ou o debate de questões morais, de costumes, de posicionamentos diversos face à vida. Está mesmo repleto de meditações filosófico-religiosas. Misto de policial, de ensaio, de romance histórico vitoriano, de biografia, não nos deixa nunca: qualquer momento sem ele é um momento em que sentimos a sua falta.
O Mar, de John Banville não poderia ser mais diferente. É centrífugo, expulsa-nos para fora dele próprio. A leitura é exigente, por vezes árdua, o avançar é sempre lento e clama, a todo o tempo, por pausas. Curiosamente, o romance de Banville é muito menor do que o de Barnes, aproximadamente metade da dimensão, mas a sua leitura é bem mais demorada, aproximadamente o dobro do tempo. Onde um presenteia com estímulos, o outro só oferece desconforto. Cada frase d’O Mar é uma armadilha que se estende no caminho. Há uma profundidade que habita o fraseado e que nunca se cessa de sentir. Fala da condição humana, da infância e da velhice, da memória e da perda. Interrogamo-nos mais vezes, relemos constantemente, meditamos mais tempo e há uma densidade que nunca conseguimos anular. Paramos, somos obrigados a parar, porque é impossível continuar; porque não se consegue avançar em carne viva; porque respirar é preciso e não se aguenta tanto tempo submerso. Especialmente em apneia.
(Quando falo de livros com alguém, ou mesmo quando aludo a eles aqui, neste sítio onde os dias escorrem, enuncio-os sempre pelo nome, seguido da enunciação do autor: Uma Cerveja no Inferno, de Rimbaud, por exemplo. Uma espécie de santo e senha, a que sou fiel. Mas no caso do livro de Banville nunca o fiz. Quando me perguntavam o que estava a ler, respondia apenas: «O mar!». Acho que nunca disse nada tão grandioso, como nessa altura, quando era submetido aos interrogatórios curtos dos amigos. Experimentei variações: que estava a ler o mar; que levava o mar comigo para toda a parte, debaixo do braço; que só pensava no mar; que à noite, depois de me despir, meter entre os lençóis e ligar a luz, abria o mar à minha frente e virava as suas páginas... Acho que nunca disse nada tão grandioso, de facto. Mas acho que também ninguém reparou.)
Um homem escreveu um livro onde só existiam inícios; foi escrito na primeira hora, do primeiro dia, do primeiro ano de um século que se abria. Uma mulher escreveu um livro onde só existiam fins; foi escrito na última hora, do último dia, do último ano de um século que se fechava. São estranhos entre si, estes dois seres; incompletos. Por isso as suas vidas só se cumprirão pela metade. A menos que se cruzem.
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Um outro homem possui apenas dois livros, a isso se resume toda a sua biblioteca. Servem-lhe, à noite, de almofada. Um, é da cor do ónix, e convoca pesadelos infames; o outro, de um verde opalino, abriga sonhos miríficos. Ambos têm guarnições de cabedal e fechos com cintilações metálicas. O homem aguarda, diariamente, pela chegada da noite, numa agonia que contém, em doses perfeitamente iguais, desespero e felicidade. É incapaz de adivinhar, antes de adormecer, o que lhe reservam os dois incunábulos: se o mais o puro horror, ou a mais absoluta magia. Apenas sabe que não pode esperar nada de intermédio. E nisso consiste o seu diário purgatório.
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Há um livro, de uma edição de doze, que em nada difere das suas restantes onze cópias. Foram todos impressos na mesma tipografia, têm idêntico número de páginas, o mesmo desenho de uma valquíria nas capas pardas e quebradiças. E são, todos os doze, povoados por letras góticas floreadas, desenhadas por tipos semi-gastos, em que o d perdeu a sua haste e onde ao f lhe falta o redondo da curvatura. Apenas por um facto inquietante aquele livro se destaca dos outros símiles. Só o possuíram até ao momento homens culpados e torturados, capazes das mais atrozes acções. Algo naquele exemplar magnetiza os olhares mais torpes e lhes faz sentir a urgência da posse. Sentem que tem de ser seu, ainda que para isso tenham de roubar ou matar. Desconhece-se o porquê dessa sensação desmedida. Se porque nele vislumbram a faísca negra da cupidez ou porque entrevêem o fulgor alvo da redenção.
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(Há viagens de autocarro que não deviam ter fim, dias em que a chuva não devia deixar de cair, momentos em que o fluxo dos pensamentos não devia ser interrompido; alturas em que a dúctil substância que compôe os sonhos devia ganhar volume, espessura, densidade. Tudo conjugado, apenas para que certas ideias voláteis, sobre livros-por-existir, pudessem crescer e ganhar forma.)
Aos uinte e nove de Nouembro do ano 2007 da graça do señor Jesu Xpo,
faço sabeer que as nouidades q correm pelo reyno teem hum incontestauel cunho de uerdade e q a doaçom regia se confirma. A todos os q congratularam por missiua este uosso dedicado seruo faço sabeer q estou mui grato pela alembrança.
Registo q poucos seraao os que teem o priuilégio de haver hum cronista a fazer fee dos seus valorosos feytos... Ao dicto prezado cronista q uistoria os annais das coisas mui secretissimas e os reuela a toda aa coorte, sou particularmente deuedor do seeu permanente apoio e da confiança inabalauel q seempre me deu muuita proua, beem como da sua franca amizaade, que retribuuo em pelo menos iguaal, se nao mayor, mensura.
Atee breue a todos, certo que os poderei cobrir de amplexos, aos señores, e de osculos, aas damas, em hua proxima ocasiam, que faço uotos seja mui breue.
