Sábado, 30 de Julho de 2005

Falar de Gabriel Garcia Marquez é ainda, regra matemática isenta de excepções, falar de Cem Anos de Solidão. Para mim, talvez porque à Matemática nunca tenha conseguido perscrutar os seus (i)números segredos ou porque sempre esteve longe, infinitamente longe, de se me afigurar a mais exacta das ciências, quando falo de Gabo faço-o, em qualquer circunstância, para falar, não de cem, mas de cinquenta anos de solidão.
Para ser mais preciso, e porque tal é preciso, cinquenta e três anos, sete meses e onze dias, em que sobreveio a mais absoluta desesperança, o mais espesso vazio, um insustentável peso ao ser. Foi essa, nem um dia a mais, nem um dia a menos, a cronologia da consumação de um amor improvável, que teve como cenário a enigmática Cartagena das Índias, quando os tempos eram de inquietação e os ares estavam eternamente saturados pela presença pestilenta e sudorífera da cólera.
Sempre gostei, ainda que episodicamente o olvide, de amores crepusculares, daqueles que surgem no ocaso e pelo acaso da vida. Amor nos Tempos de Cólera, é o livro que afinal mo recorda quando, por vezes, me acontece esquecê-lo.
Quarta, 27 de Julho de 2005

Tenho um nó na garganta. Imenso. Cego. Bem aperreado. Que me sufoca e asfixia a cada novo passo dado, a cada novo exercício de respiração. Tento, tento, mas não consigo desenleá-lo. Começo-me a interrogar sobre se alguma vez conseguirei fazê-lo. Foi uma laçada brusca, inesperada. Dada com uma fita de celulóide. 35 Mm de largura apenas, alguns meses atrás, quando a última luminosidade da tarde já se esvaía. Antes do Anoitecer.
Quinta, 21 de Julho de 2005

Em 1798 era dado à estampa por um pastor inglês, de nome Thomas Malthus, um ensaio económico revolucionário. Nesse tratado, intitulado “Ensaio sobre os Princípios da População”, dedicado ao estudo da dinâmica populacional, teorizou sobre o aumento da população humana e o gradual esgotamento dos recursos naturais necessários à manutenção da espécie.
Na tese proposta estavam contidas, em uníssono, uma visão catastrofista, um pessimismo antropológico evidente e uma dimensão escatológica quase mística. Arauto vociferante do fim dos tempos, Malthus pressagiava uma humanidade sem futuro que a Matemática – a linguagem abstracta de Deus – ratificava. Este corolário tinha um duplo axioma: por um lado, o vigoroso crescimento do número de indivíduos; por outro, o crescimento, não tão impressivo, dos meios de subsistência, necessários à sobrevivência da humanidade. Os primeiros, multiplicando-se a uma cadência geométrica, galopante, ritmada pela pulsão dos corpos que, ávidos, se procuravam, nessa busca mútua multiplicando-se; os segundos, progredindo de forma contida e hesitante, de acordo com uma mais frugal aritmética, soma de resultado imprevisível, governada pelo suceder das estações. A fome, no fim do caminho.
Com a leitura, creio, sucede fenómeno equivalente.
O estrépito das rotativas que, incansáveis, troam os ares enquanto grafam tipos sem fim e espessos caracteres de tinta negra agita-me, não raras vezes, o sono. Nessas noites brancas, Malthus – o outro nome para a Angústia – chega sempre, tão inesperado, como inevitável. Vem de surpresa, quando a mente já baixou as guardas à vigília. Então, num quase imperceptível murmúrio, temível fio de voz, anuncia a progressão geométrica dos livros impressos, vomitados das entranhas de mil gráficas, em direcção a fileiras infindáveis de escaparates reluzentes. E nesse sussurrar desvenda, para minha grande admiração e maior deslumbramento, admiráveis mundos, infinitos mundos, que logo se apressa a velar. Com o que me condena, em nova reedição da sua malfadada teoria, a outra espécie, não menos terrível, de fome; a uma diferente, mas igualmente devastadora sede.
Combate desigual, pois, o que travo, esgrimindo como única arma oponível a tal geometria variável, a aritmética simples das minhas parcas leituras, feitas durante os momentos insones. Sofrendo, em cada nova batalha, maiores e mais duros reveses.
Eu, Quixote, lutando contra moinhos de vento.
Domingo, 17 de Julho de 2005

O título com que foi designado ou, mais apropriadamente, baptizado, este caderno de anotações não é decididamente vulgar. É crível que possa despertar surpresa, espanto ou curiosidade; que possa ser classificado de inverosímil ou pretensioso; ou que, com alguma sorte, suscite o aplauso, o entusiasmo, alguma admiração. Tudo dependendo da sensibilidade, dos humores e da disposição dos que nele acidentalmente esbarrarem, ou dos favores com que algum visitante, ao longo das suas errâncias, nele tropeçando, me queira presentear.

Mas nenhum outro nome poderia haver, nenhum outro melhor me poderia escorrer, para apor em gotejantes letras na capa de um diário. Principalmente quando de um de bordo se trata.

O título não será contudo merecedor de grandes polémicas ou longas perorações. Mais estranhas frases se proferiram antes e outras, por certo ainda mais singulares, se ouvirão depois. Todavia, antecipo-o, haverá detractores. Quem, perante o inusitado da adjectivação usada para qualificar a transitoriedade dos dias, se insurja violentamente, pouco disposto a fazer cedências ou concessões. Quem procure rectificar a inabalável ordem das coisas, repor a imperturbabilidade dos factos, desmistificar logros e embustes. Quem se apresse a denunciar a herética e improvável aliança de conceitos, em tudo ofensiva das naturais leis da física e dos cânones gramaticais. Quem não hesite em retalhar, a finos golpes de bisturi, a poética metáfora dos dias que não correm, mas escorrem, dos dias que não se volvem, mas, antes, se dissolvem.

Os cépticos (é deles que falo), sabe-se de fonte segura, encontram-se por toda a parte. Reconhecem-se facilmente por preferirem sempre as sólidas, às líquidas evidências. Espero, por isso, que se mantenham, avisadamente, ao largo.

Todos os outros, os que mergulham fundo na correnteza dos dias, procurando reter cada gota, sorver cada húmida partícula de tempo, serão, escusado dizê-lo, bem vindos a esta viagem. Viagem que se deseja sem rota, nem destino marcados; jornada de longo curso de onde estarão ausentes todas as bússolas, quadrantes ou planisférios. Viajar-se-á, portanto ao livre sabor da corrente. Apenas um desígnio, um único objectivo expedicionário: isolar da copiosa corrente que nos submerge, cada vez mais e mais veloz, algumas gotas. De todas, as mais preciosas. E tentar evitar que para sempre se desvaneçam; tentar evitar que para sempre se evaporem.