Há dois tipos, apenas dois, de escritores. Ou, mais exactamente de pessoas que escrevem - o que não é definitivamente a mesma coisa: os epidérmicos e os dérmicos. Os primeiros conseguem exprimir todo o torrencial de emoções que os tolhem e atropelam, assim que lhes tocam a supefície, mal lhes afloram a pele. Mostram-se capazes de as despejar, volvidos breves instantes, em tropel, nos seus cadernos de anotações, num invejável e torrencial fluxo de exuberância criativa, onde a metáfora da página em branco nunca tem lugar. Quanto aos segundos, os dérmicos - grupo onde, é indiscutível, estou filiado -, necessitam de mais tempo para absorver as suas vivências e experiências pessoais. São, talvez, menos sensoriais e por isso precisam de as deixar alastrar, subreptícias, num lento processo de osmose subcutânea. E só então, depois de prolongado amadurecimento, se mostram capazes de reproduzir as suas cargas, quando não sobrecargas, emocionais, já uma vez bem interiorizadas.
A desvantagem dos que escrevem de forma epidérmica é, óbviamente, a sua extrema superficialidade. Vogam de emoção em emoção, sem reter nenhuma, passando à seguinte sem contemplações. Nunca se fixando em momentos particulares ou detendo-se em singulares episódios. Basta, por vezes, para eliminar as sensações colhidas, um banho mais prolongado, a água e o sabão encarregando-se de as fazer desaparecer, removendo-as juntamente com o suor do corpo, em higiénica e obliviante operação. Quanto aos dérmicos, o seu maior contra, é a profundidade em que algumas das suas experiências se alojam, demasiado subterrâneas para serem encontradas, agrilhoadas nas profundezas do ser, lugares ermos onde dificilmente as alcança a memória.
Vem esta reflexão, que saíu mais extensa do que previsto (nunca sei por que estranhos e tortuosos caminhos me levam as palavras...) a propósito da promessa, acto irreflectido e de que fiquei refém, de enviar uns post(ai)s ilustrados da viagem agora iniciada ao subcontinente sul-americano. Essas pequenas crónicas quotidianas nunca saem como desejo. Falta-me o tempo necessário para moldar as palavras, para as burilar, para as obrigar a dizer o que sinto. Pouco lisongeiras para ilustrar o que viram os olhos, incapazes de traduzir o que o corpo percebe. Sem espaço para se soltarem, pressionadas pelo rápido tique-taque do relógio, contando curtos 15 ou 30 minutos de intensivo uso internáutico, num qualquer ruidoso cibercafé de uma qualquer cidade. Paciência, portanto, é o que peço aos meus amigos. E alguma contemporização. Mas, justamente porque são meus amigos, sei que posso contar com ambas.
Longo intróito. Agora os factos.
Ontem abandonei Buenos Aires, com enorme pena, sentindo a mesma saudade e lamentosa resignação que se sente quando se abandona algo que já consideramos nosso. Para a despedida guardei a área de Palermo, com os seus frondosos bosques e jardins, onde os caminhos se bifurcam e as veredas se estendem. Lugar privilegiado onde os porteños recebem, com flores e em flor, a chegada da Primavera.
Aos muitos hectares de verde, seguiu-se Palermo Viejo, onde abundam as pitorescas e serenas calles de pedra, salpicadas por pequenas lojas de artesanato e por cafés pacatos que convidam à aventura da leitura. Não por acaso, o seu epicentro é a rua Jorge Luis Borges - o equívoco, o esquivo, o fantasmático escritor, o inenarrável contista, a minha perturbante obsessão literária - que paira omnipresente pela cidade.
Dei conta, há alguns dias atrás, do meu projecto de ler um conto seu nas escadas da Biblioteca Nacional de Buenos Aires, lugar onde tantos anos foi Director, já cego, tendo recebido a notícia da sua nomeação com um sorriso e algumas, poucas, palavras: "a suprema ironia de Deus". Quando me aprestava para o fazer, iniciar a leitura, o conto meticulosamente escolhido, A Biblioteca de Babel (poderia ser outro?), senti-me uma personagem de uma sua estória, presa em ardis, labirintos e jogos de espelhos, lidando com a falta de substância do tempo. A Biblioteca Nacional que encontrei não era aquela que tanto procurava. O edifício que se erguia à minha frente era novo, um equipamento cultural moderno e melhorado da cidade, sem memória e sem passado. Desfeito o equívoco, reatei a busca, pressuroso, à imagem daquele outro homem por ele descrito e a quem chamou Homero, que perseguia a imortalidade para, uma vez conseguida, iniciar uma nova perseguição, ainda com maior empenho, da sua mortalidade perdida e tão desdenhada.
Para meu espanto, a suprema ironia de Deus a que Borges aludira haveria de se manifestar novamente. Era em Santelmo que se quedava o velho palacete que um dia abrigara Borges, o seu intelecto e o espólio literário da cidade. Santelmo, o bairro do casco velho de Buenos Aires. Santelmo, onde tinha estabelecido o meu quartel-general, o meu posto avançado. Sem o saber, debaixo da sombra tutelar do velho mestre.
***
Cheguei a Montevideo. Não sei ainda que alegres surpresas, pequenos prazeres ou risíveis decepções me reserva a capital uruguaia. Ainda toda por desvendar, mas já merecedora da minha estima. Chegar pelo Rio da Prata ao cair do crepúsculo, ver o seu skyline recortado no horizonte, o porto vibrante de vida, é uma experiência que não irei esquecer. Ainda que tenha para me lembrar mais tarde, de esgravatar, bem fundo, sob a pele retalhada.
Quinta, 22 de Setembro de 2005

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