Segunda, 05 de Setembro

A amizade mede-se. Intui-o desde sempre, somente desconhecia a exacta maneira de o fazer. Na fúria de avaliar, de quantificar... que digo?... de estimar os amigos, de descobrir com precisão a distância que me separava daqueles de quem gostava, usei inéditas escalas, de tamanho e alturas variáveis, tirei azimutes de afectos, cartografei rotas de sofreguidão, escolhi enganosos e falíveis referenciais de ternura.
Pensava que se fosse capaz de medir a amizade me seria possível vencer os espaços vazios deixados por aqueles que se afastavam, ainda a tempo de seguir no seu encalço e de os transformar, de novo, em meus reféns e cativos. Aconteceu que perdi amizades (e amores) porque os deixei ir, incapaz que fui de os recuperar, sem saber como transpor as distâncias cavadas, entretanto entrecortadas por abismos de fel e amargura. Trilhei, à vez, quilómetros, jardas, horas e léguas, sem lograr aproximações, nem encontrar caminhos de regresso.
Os anos, todavia, tornaram-me mais sábio e experimentado. Hoje, sei o que se utiliza para mensurar a amizade e, desde então, nunca mais perdi nenhuma. Apenas me surpreende o tempo que levei a adivinhá-lo, pois usa-se nesse cálculo a única medida possível. A mesma que utilizam as embarcações à deriva, enquanto procuram portos de abrigo, resguardos seguros onde se protegem até ao amainar das tempestades. A amizade mede-se em nós. E nessa ordem de grandeza, metamorfoseada em pronome pessoal, que enlaça, ata e envolve, nunca haverá, garanto-to, o mínimo risco de nos perdermos. Basta para isso, Miguelita, reeditar Teseu e Ariadne, no Labirinto do Minotauro. Ainda que uma das extremidades do novelo esteja em Braga e a outra em Lisboa...