Sempre que posso, viajo. Mergulho, então, em vertiginosas e acrobáticas quedas livres pelos interstícios do espaço e do tempo. Mas, nem sempre fui capaz de o fazer, pois o segredo das viagens espácio-intemporais esteve-me vedado durante toda a infância e parte da adolescência. Se hoje o faço, se me desloco a velocidades fotónicas apenas para ver explodir super-novas azuis ou gigantes brancas, é à Galáctica que o devo. A ela. Só a ela.
Da primeira vez que viajei pela infinitude astral não estava sequer seguro do que fazia, nem tão-pouco da justeza da minha missão, muito menos da fidelidade dos meus companheiros de jornada. Dificilmente seis ou sete garotos a tripular caixas de fruta vazias, tendo como hangar de saída uma mercearia de esquina, serão a esquadrilha indicada para derrotar uma miríade de olhares ciclópicos, sempre vigilantes, atentos às nossas movimentações, e que, estranhamente, se assemelhavam a familiares e vizinhos. Apesar das adversidades e da desproporção de forças em presença, logo nessa batalha inaugural em que jogámos tudo, saímos vencedores. Muito celebrada, a vitória, porque obtida sem vítimas no nosso lado. Seguiram-se novas batalhas tão saborosas e com vitórias tão categóricas como aquela primeira, ao longo de tórridas noites de verão. O fragor da batalha, esse, era sempre bem audível e prolongava-se até de madrugada.
Mas, pouco a pouco algo aconteceu, algumas baixas ocorreram, companheiros de inúmeras batalhas foram ficando pelo caminho; as caixas de fruta, vazias, a acumularem-se nos cantos. Mais e mais. Cada vez mais. Demasiadas. E hoje, duas décadas depois, só eu resto. Pelo menos, assim o julgo. Não encontro ninguém, a percorrer Aldebaran, Alfa Centauro ou Cassiopeia, enquanto me maravilho com planetas de sóis duplos, faço descongelar calotes polares em planetas gelados ou enfrento temíveis olhares metálicos assassinos.
Por vezes, nos rastros brilhantes de alguns cometas, parece-me reconhecer um rosto de outrora e, no entrechocar de dois asteróides, escutar o sussurro de vozes familiares. São falsas quimeras que alimento. Contudo, hoje, depois de rever a Galáctica, numa quente noite de verão, semelhante a tantas outras do meu passado, tenho uma ténue esperança de que talvez os outros se recordem. De serem Starbuck e Apolo. De enfrentarem cyclops e de pilotarem caças inter-estelares. De buscarem um novo planeta, capaz de abrigar todo um povo em fuga. Se se lembrarem irão concerteza voltar a sair nos velhos caças para trilhar as mesmas rotas astrais de então. E , quem sabe, talvez a velha frota possa ser toda reunida novamente...
Segunda, 22 de Agosto de 2005

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