Os argentinos revelam uma forte inclinação para a idolatria. Devotos, erigem templos com as suas próprias mãos. Crentes, clamam por canonizacões e profetizam milagres. Empenhados, organizam romagens que rivalizam entre si em tamanho e em actos de fé. Dedicados, professam cega devoção a relíquias, muitas delas apócrifas.
A espiral de vertigem religiosa que comprova o fervor de Buenos Aires, explica a multiplicação dos locais de culto e a proficiência dos seus santos. Exactamente do mesmo modo que justifica as suas meteóricas quedas. A ilusão, nestes casos, nunca é duradoura. Desfeita pela ausência de milagres. Desmentida pela falta de sinais divinos. Por demais evidente nos pés de barro dos falsos ídolos que se quebram, com estrépito, ao embater no solo. Porque incapazes de se manterem nos altares e nos nichos para onde foram, em desditosos dias, elevados.
Na história recente da Argentina apenas dois santos mereceram a sua beatificação. Fui ontem no seu encalço, em privada peregrinação. Eu, que não sou homem de fé, nem dado a manifestações religiosas, experimentei dois momentos de um tão inesperado como comovedor misticismo: o primeiro, ao visitar a campa de Eva Maria Duarte, dita Evita Perón; o segundo, quando rumei ao Estádio do Boca Juniors, onde Maradona fez as suas primeiras messiânicas aparições.
Ambos, Evita e Diego, campeões dos pobres, dotados do único atributo que faz os santos, portadores da alquímica propriedade capaz de transformar o barro (em que foram gerados) em ouro, nobre metal que refulge a glória divina. O ouro que se fez coração no peito da mulher que socializou um homem e, logo em seguida, um país. Aquela que chamou descamisados aos seus queridos pobrecitos, numa nua adjectivaçao que em outra boca seria apenas um insulto e nela não era senão uma doce prova de carinho. O mesmo ouro dos pés de Maradona, que devolveu momentaneamente o orgulho perdido aos deserdados da fortuna, primeiro aos do seu próprio povo, depois às gentes de Nápoles, mostrando-lhes luminosos lampejos da graça divina e o toque de Midas da genialidade.
Quarta, 21 de Setembro de 2005

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