(Todos os textos merecem uma segunda oportunidade, até os terríveis, como o que aqui morava antes. Dei-lhe uma guia de marcha para que mudasse de ares e perdesse alguma da petulância anterior. Regressou, pouco depois, não com muitas mudanças. Mas ainda assim espero que mais simples, claro e melhor. Era um balanço. Talvez por isso tenha perdido o pé.)
Tempo de balanço. Os dias vão escorrendo, deslizantes, pela superfície árida deste caderno. Em horas incertas e em datas adiadas. Um pingo aqui, outro pingo ali, formando pequenas poças salpicadas por lembranças, charcos de desolação, aquáticas quimeras. À queda de novas gotas sucedendo-se, quase sempre, ligeiras ondas de choque, propagando-se, concêntricas, até esbaterem naqueles que o lêem. Então, escuto os ecos das minhas palavras, neles ricocheteando. Ouço, com imensa atenção, as vozes dissonantes, pronunciando-se sobre os escritos vertidos, classificando-os de bonitos, angustiantes ou curiosos; de herméticos ou circulares; como vagamente fantasiosos ou deveras interessantes. Apenas unânimes quando proferem, em coro: tristes, sentimentais, melancólicos!
Não sei se essa invocada tristeza corresponderá à verdade. Nem me parece que deva ser julgador em causa própria. A não ser que fosse o mais inclemente dos juízes, me chamasse Salomão e, então, que me restaria senão, pretextando justiça, rasgá-lo ao meio, a este blog de notas? Salomonicamente, pois claro. Em duas partes exactamente iguais. Tão iguais como duas gotas de água.
Felizmente não sou juíz. E portanto, por enquanto, conservo ainda intactas as notas avulsas. Contudo, com algum esforço e recorrendo às doses possíveis de alheamento e distanciação, talvez deva reconhecer, olhando para trás, que as palavras que por aqui brotaram se assemelham demasiado a lágrimas. As acusações de melancolia, nessa medida, podem ser mais do que uma húmida coincidência. Não se trata aqui, portanto, de iludir o que escrevo. Longe disso. A escrita é transparência, não opacidade. Convém apenas ter em mente, para que conste e para que se possa perceber o hipotético sentimentalismo que supostamente impregna a minha prosa, que escrevo em português. Debato-me, portanto, com a minha própria língua. Lido com a única no mundo que decanta, em alambiques feitos de ligas de metal e nostalgia, o volátil sentimento da saudade. Onde quase todas as palavras não são alegres, mas perfurantes e, por essa razão, ou são graves ou são agudas. E onde, as que restam, são acentuadas de modo esdrúxulo. Parafraseando o poeta, "todas as palavras esdrúxulas, como os sentimentos esdrúxulos, são naturalmente ridículas". Ridiculamente tristes, devo acrescentar, com gravidade, em aguda observação. E à laia de justificação.
Quarta, 14 de Setembro de 2005

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