Sexta, 30 de Setembro de 2005

Há cidades impressionantes mas só algumas, muito poucas, são as cidades impressionistas. Conhecia uma, Paris, que pensava ser única. O Chile surpreendente e generosamente deu-me a conhecer outra: Valparaíso.
Outrora - há palavras mágicas, capazes de à sua menção convocar instantaneamente outros tempos, outros oras, outros agoras - abrigo de galeões espanhóis a caminho do Vice-Reino do Perú, mais tarde antro de piratas e de corsários, depois casa de Neruda, hoje património da humanidade, Valparaíso é uma enseada manchada de cor. As casas salpicando a encosta não mais do que pontos difusos e imprecisos, pinceladas rápidas, nervosas, cirurgicamente depositadas na paisagem. Pingos de luz e de sombra, feitos de tintas e pastéis, na tela vazia espraiando intensos vermelhos, esquecidos verde-água; amarelos violentos e tórridos laranjas; serenos azuis celeste, atenuando outros azuis, marinhos, mais tumultuosos; castanhos esmaecidos deslizando sobre agonizantes cinzentos. Quando vista de perto uma inqualificável desordem pictórica, mas se observada à distância uma admirável sinfonia cromática, composição de invulgar beleza.
Como qualquer pintura impressionista, como outra qualquer obra de arte, necessitando de espaço para respirar, exigindo do espectador mais do que um breve olhar, um relancear de vista desinteressado, mas um genuíno esforço de percepção motivado pelo desejo incessante de sonhar. Nesse anseio buscando encontrar aquele exacto local de observação, o ideal ponto de vista, onde toda a incompreensão cessa, tornando-se deleite e puro prazer. A mais absoluta fruição.