Quarta, 28 de Setembro de 2005

É corrente dizer-se dos homens para justificar os seus comportamentos, as suas acções faltosas, os seus gestos nobres, as suas grandes decisões ou os suas mais prosaicas atitudes que eles são o fruto do seu contexto, da sua conjuntura, enfim, das suas circunstâncias. Eu próprio o digo, amiúde, para justificar por vezes o injustificável, os meus fantasmas, as angústias que me atravessam a espaços, as inquietantes hesitações, os momentos insuspeitos de felicidade. Mas, no meu caso particular muitas das minhas circunstâncias foram e são ditadas pelos livros que li, fiéis e inseparáveis companheiros de infância, adolescência e maioridade. Amores que não arrefeceram com a idade, a que o tempo não macerou com feridas, cicatrizes, antes instilou uma crescente e renovada paixão e entusiasmo, braseiro inesgotável de calor e conforto.
Ao compaginar estas crónicas de viagem, semi-delirantes, dei-me conta inadvertidamente de que não foram o acaso, a imprevisibilidade ou o sentido de aventura e errância, ao contrário do que imaginava inicialmente, que guiaram os meus passos. Subreptícias, subcutâneas, subliminares, as minhas memórias literárias encarregaram-se, - como se encarregaram sempre até aqui, vejo-o agora com clareza - de ditatorialmente traçar os meus itinerários de viagem, só na aparência pretensamente livres. Determinísticas, intolerantes, inquestionáveis.
Inventariando o meu percurso até agora, retrospectivamente, cheguei a Buenos Aires pela mão de Borges, falei de Swift em Montevideu e lembrei-me de Camões (da sua lírica, não da sua homérica epopeia) e de Pessoa ("Oh mar salgado quanto do teu sal são lágrimas de portugal…") em Colónia del Sacramento, uma pequena pérola portuguesa engastada numa curva do Rio da Prata. Segui para Sul, apenas porque antes tinha lido Jack London, porque estive uma vez Na Patagónia com Bruce Chatwin e porque embarquei numa viagem passada com Joseph Conrad A bordo do Snark. Procurei baleias, manejando arpões imaginários, impulsionado por Melville, pela narração que fez do seu capitao Ahab, que viveu e morreu, desesperadamente obcecado por uma terrível baleia branca. E recorri a Marguerite Yourcenar (curiosa e inesperada escolha) para descrever os gigantes cetáceos oceânicos dos mares do Sul. Agora dirijo-me a Pablo Neruda, tendo nas mãos os Versos do Capitao. Rumo a Gabriela Mistral, a Skármeta e a Jorge Edwards, em busca de uma terra de poetas e de narradores mágicos.
Prossigo, em breves momentos, ofegante, a ansiedade mal contida, para o Chile.