Quinta, 06 de Outubro de 2005

La Paz, na Bolivia, a capital mais alta do mundo, é uma cidade vertical. Está situada em pleno coração dos Andes, onde o ar é rarefeito e o oxigénio escasso.
As dificuldades de respiração que tolhem o viajante, acabado de chegar, só em parte são explicáveis pelos efeitos da altitude sobre a sua fisiologia. É, na verdade, a visão de uma cidade-cordilheira que lhe tira o fôlego, que lhe torna irregular o respirar e alterado o seu batimento cardíaco. As praças e as pracetas sao pequenos planaltos, que cortam as abruptas orlas montanhosas, ressaltos ali dispostos para facilitar a dura ascensão dos seus habitantes. As ruas que se estendem, do cume à base, pelas encostas irregulares não são mais do que trilhos sinuosos, veredas percorridas incessantemente pelos nativos. Calcorreadas por rostos andinos, graníticos, como a pedra das montanhas que os cercam, as suas caras angulosas lapidadas a cinzel e buril pelo tempo e pela vida dura que levam.
Na verdade, rapidamente se intui que a capital boliviana não é uma cidade onde seja fácil viver. Mulheres de corpo alquebrado carregam sobre as costas, cansadas, fardos de roupa, artesanato e amargura; meninas engraxam sapatos, enquanto vislumbram pelo canto do olho, no volteio de um pião, a sua infância perdida; pobres arrastam-se, febris, procurando protecção e amparo no átrio da Igreja de São Francisco, o patrono dos mendicantes; homens, espectrais, deslocam-se como sombras e mergulham vertiginosamente no vazio dos seus olhares ausentes.
A fome, a pobreza e a desesperança estão presentes em todo o lado. Erguem-se, bem alto. E não deixam ninguém respirar de alívio.
Pois La Paz, na Bolivia, a capital mais alta do mundo, é uma cidade vertical. Está situada em pleno coração dos Andes, onde o ar é rarefeito e o oxigénio escasso.